XIV – Arzúa

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Meus pés melhoraram. Havia uma pequena bolha, novinha em folha em um dos dedinhos, mas essa não preocupava. Dependendo de onde se localizem, não são exatamente um problema. A bolha chata era a mesma, a tal que ficava na parte de baixo do calcanhar esquerdo, essa não tinha como não forçar, nem como fazer de conta que não doía. No máximo, aprendia a tolerar. Ela havia duplicado de tamanho e agora tinha o formato de coração. Muito poético, mas um pé-no-saco! 

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Enfim, Arzúa era mais simpática. Não tão antiga, nem tão nova, na verdade, não era muito diferente de Melide, mas tinha um astral melhor. Talvez porque a jornada se aproximasse do fim. Para muitos peregrinos, essa é a parada final, antes de Santiago, que fica há cerca de 40 Km. Nós dividiríamos a jornada em duas vezes, não havia motivo para pressa. 

Ficamos em uma pousada ótima, antiga, tradicional e muito limpa. Dessa vez, não haviam mais quartos duplos e cada uma ficou com sua própria suíte, um luxo! Perguntei se havia como lavar a roupa e me indicaram uma lavanderia próxima que lavava para o mesmo dia. Beleza! 

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Mandei um recado para os amigos brasileiros, avisei que paramos em Arzúa, onde estávamos hospedadas, quanto estávamos pagando e que havia lavanderia na cidade. Admito que avisar da lavanderia foi golpe baixo, sabia que seria tentador. Mas eles já haviam decidido que também dividiriam o trajeto em dois e não havia motivo para apressar tanto a chegada a Santiago. 

Sabe de uma coisa, acho que no fundo, ninguém queria chegar. Independente do que se passe, saber que estava acabando era difícil. 

O amigo brasileiro ligou de volta, dizendo que também ficariam e me pediu que reservasse quarto para eles dois. Que ótima notícia! Fui logo reservar porque, a medida que o dia vai passando, as pousadas vão lotando e só sobra roubada. 

O diálogo com o recepcionista foi algo bizarro, para quem não conhece a lógica ibérica, mas já sou treinada. Sabendo que não haviam quartos duplos, afinal de contas já não havia para eu e minha amiga, perguntei se haviam dois quartos para dois amigos que vinham pela estrada. Ele me respondeu o que já sabia, quarto duplo não tem. Amadores desistiriam aí, mas havia aprendido como era o esquema e perguntei, não há mais dois quartos de casal? Ele me respondeu que não. Insisti, e não há mais nenhum quarto? Ele disse, há mais um quarto. E como seria esse quarto? Para minha incredibilidade, ele respondeu, é um quarto triplo. 

Cassilda, se pergunto se há vaga para duas pessoas ele diz que não, porque o quarto era para três! 

Com toda a paciência do mundo, novamente pergunto, e quanto custa esse quarto para três pessoas? Ele, que finalmente parecia haver entendido o absurdo de nossa conversa, coçou a cabeça, me perguntou se eu tinha certeza que os dois viriam e eu disse que sim. Então, faço pelo mesmo preço que fiz cada quarto de casal para vocês.

Ou seja, acabaram melhores que nós, em um quarto duplo, pelo preço de um, e ainda por cima com uma cama extra.  

Mas também não achei ruim estar em um quarto individual. Tem uma hora que você quer se espalhar, ver televisão até a hora que quiser, tomar banho com a porta aberta, essas coisas. 

Fomos almoçar, no mesmo esquema de sempre, no restaurante da própria pousada. Aliás, a comida era surpreendentemente boa. Não que houvéssemos comido mal antes, mas há lugares que é melhor, e ali era um deles.

Assim que terminamos a refeição, chegaram os meninos. Subimos todos juntos e combinamos de nos encontrar por volta dàs 16:30, quando a lavanderia abrisse. Acho que eles ainda foram almoçar, mas eu fui dar uma morgada básica. Apaguei em uma siesta daquelas. Bom que estava no quarto sozinha, pois no mínimo dormi de boca aberta e babando! 

Acordei pontual com o despertador, não queria perder a lavanderia abrindo, vai que havia mais gente na fila. Precisava daquela roupa limpa e seca. Minha amiga também não vacilou e chegamos na lavanderia pouco antes dos amigos brasileiros. 

Dali, sentamos em um bar na praça, uma mesa ao ar livre, bem agradável. Os amigos brasileiros chegaram depois e, logo em seguida, vieram uma guatemalteca e uma americana. Ambas simpáticas, mas a guatemalteca perguntava muito. O que estávamos fazendo ali, quais eram nossos motivos, idades, profissões, onde morávamos etc. Que estranho, me senti meio invadida. Experimentei fazer o seguinte, tudo que ela me perguntava, retrucava, e você? Engraçado, notei que ela não gostava tanto assim de responder. Não demorou muito a parar de me perguntar as coisas. 

Tinha um plano malévolo. Precisava fazer hora até a roupa ficar pronta e percebi que haviam alguns salões de beleza pela cidade. Que vontade de fazer uma escova! Primeiro me parecia fútil, mas depois pensei que era absurdo, pois se podia cuidar da minha roupa, por que não dos cabelos? A verdade é que secar minha juba sem secador era um inferno, ficava com as costas molhadas ou tinha que prender ainda úmido. Taí, vou achar um salão! 

Acontece que era segunda-feira, e os salões fechavam. Pergunta daqui, pergunta dalí, descobri uma senhora que tinha um salão em casa. Toquei no apartamento dela, assim meio desconfiada, havia outra senhora, muita feia, cortando o cabelo. O lugar era bem simples e fiquei pensando que talvez aquela não fosse uma boa idéia. Mas depois vi que era besteira da minha parte, o que poderia dar tão errado. Pois na minha vez ela foi simpática, lavou bem meu cabelo e me fez uma escova capaz de recuperar algo de auto estima. 

A roupa de peregrina me deixava muito masculina, uniformizada. Eu gosto de ser mulher e do meu cabelão. 

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Fui à lavanderia, roupa limpa e meias secas. Que alívio! Agora era tranquilo, mesmo que não conseguíssemos lavar mais roupa, só havia uma parada antes de Santiago. Não corria mais o risco de usar meias úmidas, o que significava, bolhas sob controle. 

Voltei à praça para encontrar os amigos que seguiam no bar. A mesa havia crescido e o papo corria animado, me receberam de farra com meu cabelo. Havia novos e velhos conhecidos, nesse dia, me sentia muito à vontade. Havia um grupo grande de brasileiros. Tiramos fotos, tiraram fotos da gente. Quer dizer, não sei se eram da gente ou do nosso amigo barbudo que chamava atenção, mas isso já havia virado até piada para nós. 

O brasileiro mais jovem me perguntou, se referindo ao mais velho, ele hoje está mais agitado, não? Será que é porque está chegando? Também havia notado. Na verdade, achava que todo mundo parecia mais empolgado. 

Fomos jantar, nós quatro e sem combinar absolutamente nada, acabamos todos os que estavam juntos na praça, no mesmo restaurante. Sentamos na mesma mesa da guatemalteca e a americana. Na mesa de trás, um grande grupo de brasileiros, bem mais jovens. Alías, não era comum ver tanta gente jovem. 

Durante o jantar, descobri porque a Guatemalteca perguntava tanto, sua amiga queria escrever um livro sobre o motivo das pessoas fazerem o Caminho. A idéia me pareceu estranha, muitos filtros e lentes que distorceriam a realidade. Na minha interpretação, seria tão emocionante quanto ler bula de remédio. Não porque não pudessem haver boas histórias, mas era difícil achar quem quisesse contar a sua. Melhor que escrevesse sobre a própria experiência, até porque, era uma mulher muito interessante. Era médica, trabalhava nos EUA para ganhar dinheiro, depois passava o resto de tempo trabalhando como voluntária em lugares como África e América do Sul. Enfim, não sei o que pensavam meus amigos, mas ninguém deu grandes informações, pelo menos, não que tenha presenciado. O curioso é que a americana, quem supostamente escreveria o tal livro, não perguntava. De qualquer forma, nem uma nem outra insistiu mais no assunto e foram companhias agradáveis. 

Para variar um pouco, começamos a cantar, era uma música do Gonzaguinha, aquela do viver e não ter a vergonha de ser feliz… A mesa de trás, todos brasileiros, engrossaram o coro e ficou bonito. 

Até que uma delas, não sei porque, levantou com uma bandeira brasileira, começou a sambar e a pedir que beijassem a tal bandeira. Achei aquilo um exagero. Detesto esses showzinhos de patriotismo festivo, que na prática é uma pura exibição de dotes pessoais ou uma autoafirmação chata. Achei ridículo. Troquei olhares cáusticos com meu amigo brasileiro, ele também se irritou.

Paciência, não era o fim do mundo. Como de costume, nos despedimos e avisamos que no dia seguinte sairíamos cedo. Ficamos de nos encontrar em Pedrouzo/Arca, onde reservaríamos um lugar para eles também. 

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