XIII – No meio do caminho tinha uma bolha

“No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra/ Nunca me esquecerei desse acontecimento/ na vida de minhas retinas tão fatigadas./ Nunca me esquecerei que no meio do caminho/ tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ no meio do caminho tinha uma pedra”                                                                      (Drumond de Andrade) 

Acordei preocupada, não tinha mais como adiar, precisava seguir adiante.  

Gostando ou não de onde se dorme, no dia seguinte a gente não consegue continuar no mesmo lugar. Alguma coisa te empurra para frente. Não dá para voltar e o único motivo que te justifica parar é a total incapacidade física. Não era o caso. 

Fiz o melhor curativo que pude, até acolchoei a bolha do calcanhar com um pedaço de silicone. Pensei que poderia acabar por forçar o joelho da perna oposta, na tentativa de aliviar o peso. Achei que seria boa estratégia já sair de joelheira.  

Vontade de reclamar de dizer que não dava. Mas cassilda, minha amiga já havia se levantado em condições bem piores e não deu um pio, como é que vou parar por causa de uma merreca de uma bolhinha? Quem está na merda não pia, lembra? Então, cala a boca e anda. 

Subi as escadas da pousada mancando para tomar o rumo da estrada. Putz! Vou andar 13 Km mancando? Bom, não tem jeito, mudar a postura, são só 13 Km, normalmente caminhamos bem mais. Vai passar. Na hora do almoço já estaremos na próxima parada. Todo mundo aqui anda com bolha, minha dor não é maior do que a de ninguém. Que se dane! 

Fui lenta, mas fui. O corpo vai aquecendo e viramos umas maquininhas de caminhar. Havia um lado bom em ir mais devagar, via melhor o que passava em volta. Minha amiga tinha melhor ritmo nesse dia e estava difícil acompanhar. Para ela também seria ruim diminuir o ritmo, tem horas que a gente engata e não dá para reduzir. 

Parei para acertar os curativos e tinha a sensação que tudo que fazia era lento, difícil, demorado. Ser ultrapassada normalmente não me incomodava em nada, mas nesse dia era como se me lembrasse a própria incompetência. 

Honestamente, tinha vontade de ir um pouco só, estava angustiada. Quando não estou bem, me isolo. Em determinado momento, diminuí mais ainda o passo, e me desencontrei da minha amiga. Precisava ficar sozinha. Vontade de desistir e muita dor nos pés.  

Às vezes, não só nesse dia, tinha a sensação de estar sendo seguida ou observada, olhava para trás e não via ninguém. Não dá medo nem deixa a gente impressionada, pode ser bicho, pode ser alguém que ficou para trás, pode ser qualquer coisa. Mas de novo aquela sensação de ser seguida. 

Sei que foi dando vontade de chorar, me senti sozinha de verdade. Como nunca me importo em ficar, a solidão raramente me incomoda.   

Por que nunca peço ajuda a ninguém? Por que é tão difícil? Com a desculpa de não incomodar, camuflo uma autosuficiência irritante e arrogante. Nem sempre o que é humano me interessa e não gosto de mudar por ninguém. Talvez, se pedisse ajuda, se errasse um pouco mais, quem sabe fosse mais humana e desse chance às outras pessoas de serem úteis, ouvidas e respeitadas. Minha certeza é rígida e minha independência incondicional pode ser ofensiva. Minha solidão bem resolvida desrespeita quem me cerca. Essa é minha natureza, não sei porque sou assim, mas sou e essa consciência me deixou com vergonha. 

Minhas avós sabiam como eu era, sempre souberam, mas não se importavam. Na hora que a coisa ficava preta, era a elas que recorria. Não precisava explicar, dizer nada, só a presença funcionava como um porto seguro. Ultimamente, quase não chamo, acho que estão ocupadas. De novo, em minha arrogância, acho que preciso menos. Mas estava no fundo do poço e admiti que precisava muito dos meus fantasmas. Pois uma apoiou meu braço, a outra me deu a mão, e assim fomos caminhando caladas até que matasse minha saudade e não me sentisse mais só.

p6040543.jpg 

Seja bem vindo a comentar! Sua resposta pode demorar um pouco a ser publicada.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s