XII – Melide

Não acordei aliviada por ter me livrado de andar. Pelo contrário, estava triste e decepcionada. Saí um pouco na frente, andando, em direção à praça principal da cidade de Portomarín. A desculpa, em parte real, de comprar novas meias e evitar uma futura bolha. 

A verdade é que era difícil caminhar até de papete, a qual tirei a parte de trás e comecei a usar como chinelo. Que droga, como fui dar esse vacilo! E se não tivesse o carro, aguentaria caminhar? E de novo a resposta de sempre, e que diferença isso faz agora.Fui até a igreja, carimbar a credencial. É uma construção bonita e interessante, anteriormente ficava na parte de baixo da cidade, que foi alagada. Transportaram pedra por pedra e a remontaram onde é hoje o centro. 

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Luiz e o casal de amigos chegaram logo, com o carro. Também caminharam um pouco e todos tiramos algumas fotos. Vi peregrinos chegando para se instalar, era por volta do meio dia, acredito. 

Os amigos brasileiros haviam deixado as mochilas, o que era um sinal de que nos veríamos mais tarde. Ainda não seria nesse dia que nos separaríamos. Combinamos de nos encontrar em Melide, próxima parada.  

Pelo caminho, Luiz dirigia bem devagar, acho que era uma maneira de tentar fazer o caminho, ou que pelo menos eu sentisse um pouco do que seria fazer aquele trecho. Ele deve ter percebido que estava frustrada. Fui de janelas abertas e tirando fotos. A velocidade era estranha, mareava. Reconheci alguns rostos, algumas mochilas, mas não tinha a menor vontade de parar e falar com ninguém. Acho que atrapalharia e me sentia um pouco constrangida. 

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Luiz estava no clima de voltar para casa, preocupado com a distância que dirigiria e com as coisas que tinha que fazer no dia seguinte. Ele também já estava no seu próprio transe e eu não tinha vontade de conversar sobre isso. Havia saído o máximo que conseguiria do meu caminho proposto. 

Chegamos em Melide num piscar de olhos. Era domingo e a cidade estava repleta de gente. Uma feira na praça principal. A cidade era feia e sem personalidade, nem antiga nem moderna, tinha cara de velha e pouco cuidada. Nem sei o que aquele povo todo achava bom fazer ali. 

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Luiz nos deixou em frente a um hostal, quase na saída da cidade. O lugar era bem simples, acho que o quarto mais sem graça que ficamos, mas felizmente, o banheiro e a roupa de cama eram limpos, só isso me interessava. De qualquer maneira, não haviam muitas opções e o preço também foi o mais barato que pagamos, 27 euros, dos quais metade cada uma.  

Dali liguei para os amigos brasileiros e confirmei se queriam que reservássemos para eles também. Apesar da viagem ter passado muito rápido, meus olhos já estavam treinados a identificar uma distância a pé, e não me parecia nada curta. Qualquer coisa, podia pedir para Luiz deixar suas mochilas em uma parada anterior. Mas isso não foi necessário, eles preferiram nos encontrar em Melide mesmo. Ainda que a distância fosse maior, não estavam carregando o peso das mochilas e isso contribuía. Muito bem, pois então deixamos suas mochilas em um segundo quarto, tão sem graça quanto o nosso, e nos despedimos de nossos maridos. 

Nem ficamos no hostal, fomos para a cidade procurar algum lugar para almoçar. Melide é famosa por suas pulperías, ou seja, restaurantes onde se come polvo. Ficamos andando como baratas tontas no meio de toda aquela gente e custamos a encontrar um local para almoçar, que a propósito, não era uma pulpería. Paciência, a fome era grande. 

Não parava de mancar e fiquei imaginando como é que iria caminhar no dia seguinte. Mas não dava para descansar outro dia, ainda mais naquele lugar sem graça. 

Encontramos um cyber café! E agora? Checava as mensagens? Fazia de conta que não tinha visto. Bom, nem tanto, nem tão pouco. Resolvi checar as mensagens, mas resistir a tentação em respondê-las. 

Foi uma surpresa ver que havia várias mensagens de incentivo e de curiosidade com que estaria acontecendo. Fiquei emocionada. Por um lado, pensava que não podia desanimar, havia gente, de alguma maneira, contando comigo. Por outro, quando imaginava o que realmente teria para contar, me gelava a espinha. As pessoas gostam de finais felizes, eu também, e será que teria uma história feliz para contar? Não era para mim que estava trilhando o caminho? Por que de repente outras opiniões ganharam importância? Do que se tratava toda essa confusão afinal de contas? 

Não respondi as mensagens, não estava preparada para interagir com o mundo real, digamos assim. A única pessoa de fora com quem mantinha contato era Luiz. 

Saímos dali e fomos caminhar. Acho que o corpo pedia. De qualquer forma, tentávamos buscar algum ângulo melhor onde as fotos fizessem a cidade mais bonita. Sinto muito, mas era difícil. 

Fomos até a igreja, para carimbar as credenciais. Pois não é que o carimbo havia sido roubado? Quem rouba um carimbo da igreja? Só em Melide! 

E nada dos amigos brasileiros chegarem. Não estava preocupada, sabia que tardariam, mas esperava que conseguissem chegar antes que escurecesse. Escurece tarde essa época do ano, por volta dàs nove e meia, dez horas. 

Resolvemos jantar cedo e, dessa vez, achamos uma boa pulpería, onde o polvo era realmente divino. Descobri depois que era considerada entre as melhores da cidade. O problema é que a quantidade foi tanta que não poderei desfrutar da iguaria por alguns meses! Na mesa de trás, dois espanhóis se ofereceram para tirar nossa foto, antes, estávamos tirando uma da outra. No início achei gentil, mas a gentileza se converteu rapidamente em inconveniência. Na hora em que nos ofereceram um café ou algo assim, tratamos de pular logo fora. O plano inicial era esperar pelos amigos brasileiros por ali, mas eles poderíam demorar e já estávamos com sono. Os dois chatos da mesa de trás só nos ajudaram a tomar a decisão que queríamos. 

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Fomos para o quarto, entretanto fiquei pronta para sair assim que os brasileiros chegassem. Não deveriam demorar muito. Precisava entregar as chaves. Esses lugares são pequenos e a sua chave do quarto costuma vir com uma chave da portaria também. Depois de determinada hora, não há ninguém tomando conta, só entra quem pegou as tais chaves.  

A cidade não era tão grande, mas eles já haviam caminhado bastante e errar o caminho logo quando você está quase chegando, ninguém merece! O que não queria admitir é que os três, minha amiga e eles, eram o mais próximo que tinha de família naquele momento. Vê-los me trazia um mínimo de rotina, de casa. E só conseguiria dormir sabendo que todos chegaram bem. 

Não demorou muito, o amigo brasileiro ligou, haviam entrado na cidade. Fui encontrá-los e avisei, sigam andando na rua principal que acho vocês. Pouco depois os avistei, junto com o casal de italianos, com quem também encontrávamos a todo momento. Eles haviam acabado de se achar. 

Nos encontramos e foi bom recebê-los. O amigo brasileiro disse algo como, puxa te ver agora foi bom porque sabia que havia chegado! Não respondi em palavras, mas pensei com meus botões, a recíproca é verdadeira. 

Estavam exaustos, claro, mas ainda queriam parar para comer e beber algo. Eu não podia mais, sabia que precisava de energia para o dia seguinte, a bolha me debilitava. Não é só a dor, que nem é esse desespero todo, mas me sentia vulnerável, com a moral meio baixa.  

Mostrei o caminho, entreguei as chaves e eles acabaram ficando no restaurante, logo abaixo do hostal. Esse é outro padrão, quase toda pousada possui um bar restaurante no primeiro andar. Essa pousada tinha uma curiosidade, pelo menos no andar que estávamos, parecia um labirinto, a ordem não era lógica. A gente podia se perder lá dentro. 

Avisei que no dia seguinte iríamos até Arzúa, uns 13 km.

Disse um pouco triste, acho que amanhã nos separamos. Não acreditei que eles quisessem andar tão pouco. Mas sabia que, pela minha condição física, não poderia muito mais que isso. Essa é outra característica que imagino ser comum, você não quer prender ninguém. Disse que sairíamos cedo e que provavelmente eles nos alcançariam, porque estava meio lenta. Minha amiga e eu gostávamos de sair mais cedo que eles, não precisava ser nada tão radical, mas a parte fresca do dia ajudava. Nunca gostei de acordar cedo, mas não dormíamos tão tarde e era razoável despertar logo que clareava. Enfim, quem sabe almoçávamos todos em Arzúa e depois eles seguiam viagem. 

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