XI – Estamos sempre entre o bem e o mal

O hotel era ótimo!

Desproporcionalmente grande para o tamanho da cidade. 

Fomos os dois casais para terraza e ali encontramos os dois brasileiros, que chegaram um a um, e outras duas peregrinas espanholas, que cruzávamos de vez em quando pela estrada, mas ali sentamos um pouco juntas. A primeira vez que as vi foi no Cebreiro, no dia que não estava para muitos amigos, almoçamos no mesmo restaurante.  

Luiz havia trazido bons vinhos de casa, e fomos tomando um a um. Não estava preocupada com o dia seguinte, já havíamos decidido não caminhar, então estava mais relaxada e curtindo o momento. Era bom. 

A vista, em frente ao rio Miño, me lembrava algo de praia, não sei porque, alguma coisa ali me remetia a um passado que não tenho certeza, mas era familiar. 

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Entretanto, algumas garrafas depois, me senti incômoda outra vez, como um reflexo condicionado. Achei que o limite havia sido passado de novo. E lá ia eu para o papel de espectadora, como se assistisse a um filme onde não tinha nada com isso. Será que não tinha nada com isso? Como meu amigo brasileiro citou em Vega, tudo que é humano me interessa.* E na minha cabeça ressoava, e se não me interessar? Sou menos ou mais humana?  

Fiquei eu e o brasileiro mais jovem um pouco calados, observando e bebendo mais água. Não sei os motivos dele, talvez fosse só cansaço, mas às vezes achava que parecíamos tanto, talvez ele também estivesse incomodado, mas não tinha vontade de perguntar. Sei os meus motivos, e era um enorme não-vim-aqui-para-isso. Não quero mudar o meu rumo. Isso está me atrapalhando.  

O brasileiro mais velho conseguia navegar com facilidade naquela confusão, e saía dela quando queria, parecia imune ao bem e ao mal; se era mesmo, não sei, e o que passou antes para ser assim, é assunto dele. Me olhava de vez em quando, como se entendesse que me sentia fora do lugar. Por que tenho sempre essa sensação de estar fora do lugar? Dividíamos um senso crítico parecido e até o fim do caminho, às vezes só precisávamos trocar alguns olhares sarcásticos e a mensagem estava passada. 

Os outros três, estavam em um planeta feliz. Bom para eles. 

Eu estava no inferno. Sentimentos contraditórios outra vez, mas agora sem grande intensidade. Recuperei meu calculismo e a frieza cética de quem tem uma missão a cumprir, e não importa o preço. I’m a woman in a mission. Lembrei da minha gata caçando, não tinha raiva, não tinha culpa, havia o alvo e acabou. 

Não me preocupei em disfarçar, nem em ser generosa. E só sorri quando achei graça. Aquela conversa não me adicionava nada, ouvia, blá blá blá… Não era o assunto, não eram as pessoas, estava em outra sintonia, em outra estação. Na hora que o jantar acabou e estava com sono, chamei Luiz para subirmos. Os outros quatro ficaram na mesa, não sei até que horas, nem tive curiosidade de perguntar. 

De qualquer forma, a companhia dos brasileiros me interessava. Não entendia bem porque, mas a presença deles me confortava. Mesmo não caminhando no dia seguinte, oferecemos levar as mochilas para eles e nos encontrarmos em um ponto de parada. Não queria forçar uma barra, talvez eles não nos aguentassem mais. Quando a gente julga os outros, lembramos que também podemos estar sendo julgados e talvez eles não quisessem minha companhia. 

Portanto, me restringi a dizer que eles pensassem com calma e se quisessem prosseguir conosco, eram bem vindos. Deixassem as mochilas na recepção que nos encontraríamos mais tarde. 

Não tive uma boa noite de sono. Estava irritada e acordei com algumas alucinações. Às vezes demorava alguns segundos para reconhecer Luiz na cama, para reconhecer em que lugar estava. Meus pés, que normalmente são gelados, suavam. 

Finalmente, a noite passou, e a luz do dia sempre nos traz uma perspectiva mais realista das coisas. Nada me parecia grave. 

Luiz reclamava que estava podre e, parecendo arrependido, dizia que havia exagerado na noite anterior. Ouvi como se fosse uma coisa estranha e que já fazia tanto tempo. 

O que mesmo queria? Que o mundo seguisse minhas regras? Obedecesse ou advinhasse minha vontade? Honestamente, sim, era o que queria. Mas nesse caso, eu que caminhasse sozinha. Uma vez que optei pela companhia das pessoas, o que elas fazem me afeta e me diz respeito. E o que faço também. Algumas coisas vou gostar, outras não. E é bom lembrar que a recíproca seria verdadeira. 

Perguntei, a gente não tinha marcado às 10:00 para tomar café? Ele dizia que não lembrava e que provavelmente ninguém lembrasse. Acabamos enrolando até quase a hora do café da manhã acabar. E, a propósito, sim havíamos marcado e todo mundo lembrou. 

* (Terêncio) homo sum: humani nihil a me alienum puto, sou homem e nada do que é humano me é estranho; ou tudo que é humano me interessa.

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