X – Portomarín que não chega!

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No caminho entre Sarria e Portomarín, começou a demorar muito para os amigos brasileiros nos alcançarem. Será que a gente tinha ligado o turbo tão rápido? Em uma parada para retocar a vaselina dos pés, liguei o telefone e tinha recado deles. Cadê vocês? 

Os amigos brasileiros não demoraram tanto assim, mas é que a gente estava numa ansiedade daquelas para chegar logo. Era difícil imaginar os maridos tão perto e tão longe. E minha bolha só aumentando…  

Os esperamos em frente a um bar, com uma gente estranha. Moradores do local cheios de gracinhas inconvenientes. Reconheci logo o jeito de gente sem opção, que a determinação alheia lhes incomoda, bate na cara e os lembra da própria incompetência.  Mas não me incomodaram e me surpreendi com a falta de vontade em reagir, não porque não soubesse como, mas porque não me valia em nada. 

Sentamos para almoçar umas duas e meia. Lugar simpático, ficamos do lado de fora, onde a temperatura era agradável. Já sem um pingo de vergonha, arranquei as botas e fui cuidar do pé ali mesmo, na mesa do almoço.  

Comemos bem e tomamos uma boa garrafa de vinho, dessa vez, uma que Luiz havia trazido de casa. Pedi a ele alguns bons vinhos para tomarmos no fim de semana. O amigo brasileiro sempre levava uma ou duas garrafas para tomar durante o caminho. Eu não queria carregar a garrafa, mas bem que gostava de participar dela. Não muito, e não mais porque me parecesse errado, mas porque não dava conta mesmo.  

Nesse local, a simpática dona e uma moça muito bonita, que parecia sua filha, nos explicaram sobre os “hórreos”. Havíamos notado uma frequente construção pequena que lembrava uma casinha, capelinha ou algo religioso. Elas nos explicaram que não era nada disso, era uma construção galega típica para secar o milho. Eventualmente, também se usava para secar carne de porco ou algo mais, uma maneira de proteger dos ratos. Fiquei sabendo depois que antigamente era utilizada como simbolismo econômico, quanto maior a longitude do hórreo, maior a riqueza dos donos.

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Fomos cantando pelo resto do caminho. A paisagem era agradável e não havia tantas subidas. Em alguns trechos foi confuso encontrar a trilha certa, mas o olhar já estava treinado. 

Minha amiga e eu combinamos que no dia seguinte ficaríamos com os maridos. Pensei muito a respeito e cheguei a conclusão que estava sendo radical, sem necessidade. O mínimo para se merecer a tal da Compostelana era de 100 Km e já havíamos caminhado mais que isso. Qual era o problema de pular um dia e descansar um pouco? Talvez precisasse de uma porcaria de uma bolha no pé para entender que era mais importante estar com Luiz e que ele também fazia parte do meu caminho. 

Avistamos Portomorín, pouco antes de uma descida íngrime, que muitas vezes exige tanto quanto uma subida. Tentava fazer diagonais e assim proteger os joelhos. Até aquele momento, eles haviam se comportado muito bem comigo, melhor que não me distraísse. 

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Na chegada, uma grande ponte e a vontade de saltar na água. Na entrada da cidade, sentei logo abaixo de uma enorme escadaria que leva ao centro e liguei para Luiz vir nos encontrar. Os brasileiros preferiram caminhar um pouco mais e conhecer o local. 

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Sentia dor, a bolha foi me minando. Não era tão grande, mas incômoda e fez com que fosse pisando diferente para proteger o pé. Na prática, acredito que estivesse caminhando meio torta e cheguei bem dolorida e cansada. 

Na recepção do hotel, o marido da minha amiga fez uma surpresa para a gente. Deixou as taças de vinho branco geladinhas nos esperando. Mas a verdade é que não conseguia ser simpática, estava com dor e doida para arrancar as botas e ver o tamanho do estrago. Lição aprendida, checar o mais rápido possível o que te incomoda e resolver. 

Brindei com eles e subi rápido. Quando tirei a bota, o estrago era menor que pensei. Uma parte que achava ser pele solta, era apenas o compeed saindo do lugar. O tal do compeed fica uns dois dias ou mais na pele de todo mundo, mas nunca resistia mais de um dia no meu pé. Talvez pela vaselina que usava, não sei. Enfim, de qualquer forma, as tais bolhas estavam lá e não eram agradáveis. Pensei, não importa, é uma droga, mas vou continuar com vocês ou sem vocês, então é melhor melhorarem e se curarem logo. 

Coloquei a papete e fui lavar o rosto para descer e continuar o brinde com o pessoal na recepção. Quando me olhei no espelho, pela primeira e única vez na viagem, me senti orgulhosa, era capaz de mudar um hábito. Era realmente capaz de mudar. 

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