VIII – Triacastela – Sarria

Acordei bem. Nossas roupas, lavadas muito tarde, ainda estavam molhadas, ou melhor, poco úmedas, mas ainda tinha um par de meias secas e curativos para o dia. Beleza! Só o que precisava. 

Estava aliviada, sabia que no fim do dia veria Luiz, que ia com o marido da minha amiga nos encontrar em Sarria. Eles já haviam reservado hotel para nós, e os amigos brasileiros reservaram no mesmo lugar. No início, achava que essa visita quebraria um pouco o clima da viagem, mas àquela altura, tanta coisa havia acontecido que achei bom. 

Na saída da cidade, duas opções, lembrei do veterano peregrino do trem, lá atrás quando íamos a Pontferrada, e sugeri o caminho que passa por Samos. No início, vamos margeando a estrada, o que nos fez pensar por um momento que talvez houvesse sido uma má opção, mas logo em seguida, entramos na trilha e, ao passar pelo enorme mosteiro de Samos, agradeci por ter feito essa escolha. 

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Ali paramos para um lanche mais caprichado, com vistas para o mosteiro. Tiramos algumas fotos. Encontramos uma americana, que já estava na estrada havia mais tempo e era amiga dos amigos, muito simpática, ia boa parte do trecho sozinha, devagar, mas sempre chegava.  

Nos lugares que a gente para pelo caminho, sempre tentamos carimbar a credencial do peregrino. É uma forma de provar que passamos por ali. Carimbar em espanhol se diz “sellar”. E na saída desse bar onde lanchamos, assim que selei minha credencial, disse ao meu amigo, aqui pode selar. Ele entendeu, aqui pode ser lá, e pensou, putz, aí vem uma discussão filosófico existencial… aqui pode ser lá, lá pode ser aqui… Não, não, aqui pode selar, carimbar a credencial! Bom, essa confusão fonética, que admito ser uma besteirinha, foi motivo de diversão e boas piadas. Será que aqui pode ser lá? 

E finalmente, conhecemos o alemão “Schleker”! 

Essa história do schlecker precisa ser explicada. Na verdade, é o nome de um alemão que possui uma cadeia de farmácias. É conhecido por ser riquíssimo e pagar mal aos seus funcionários. Muito bem, por algum motivo qualquer, esse nome surgiu em uma conversa entre o amigo brasileiro e esse amigo alemão (que não é o real Schleker). A partir daí, schleker passou a significar qualquer coisa. Podia funcionar como apelido dele, do amigo alemão. Podia ser um cumprimento de bom dia: schleker! Ou alguma coisa que ele estivesse fazendo: schleking… E não podíamos passar por nenhum outro alemão, que era um tal de schleker para cá e de schleker para lá! Não sei se fazia sentido para os alemães, mas para a gente era muito engraçado. 

Enfim, depois de schlekar um bocado, finalmente conhecemos o tal do alemão. Simpático, de comunicação verbal difícil, pelo idioma, mas gente boa. Depois disso, nos cruzamos por todo caminho até Santiago. 

Isso é outra coisa interessante. Você vai conhecendo e reconhecendo as pessoas. Às vezes já cumprimenta diretamente, outras, pouco a pouco vão se tornando familiares.

Durante as caminhadas a gente se desencontra. Há ritmos muito diferentes e em alguns segundos as pessoas desaparecem. Algumas vezes sentia vontade de caminhar sozinha, outras agradecia por estar acompanhada. Mas inevitavelmente, nas paradas a gente encontrava todo mundo e sabia de cara quem era e quem não era peregrino. Claro que a roupa ajudava, mas não é apenas isso, a atitude, o jeito de olhar, a maneira de caminhar… a gente simplesmente se reconhece. 

Leia-se peregrino como alguém que caminha, não necessariamente por motivos religiosos. Pode até ser, mas alí tinha de tudo, cada um com seu motivo. Não perguntei o motivo de ninguém, e só uma pessoa, no final, perguntou o meu. Gostei dela, mas não gostei da pergunta. 

Além do mais, um dos amigos brasileiros, o mais velho, era extremamente popular! Era carismático e falava com todo mundo. Usava uma barba enorme, alternava um chapéu esquisito e uma bandana que o deixavam facilmente reconhecível, parecido a um personagem de quadrinhos. Resultado, todos queriam fotografá-lo ou puxar papo. E ele, como um bom leonino, bem que gostava dos holofotes. Por tabela, acabávamos na mesma onda. O outro gostava de cantar e tinha boa voz. Ele e minha amiga tinham uma memória fantástica para letras de músicas, e das mais ecléticas possíveis! No início, achava estranho aquele negócio de ficar cantando alto na rua, nas mesas ou caminhando. Mas depois achei divertido e até me atrevia a acompanhar. Hoje em dia, já me peguei mais de uma vez cantando sozinha enquanto caminho pelas ruas de Madri. 

Era engraçado entrar pelos pueblos cantando alto e ver o sorriso dos moradores ou de outros peregrinos, será que esses malucos estão se divertindo? Estávamos. 

A gente cantava nas subidas também. Sei que parece incoerente, pois toma fôlego. Mas por outro lado, distrai, engana a dor. Quem canta, seus males espanta… Não foi tão simples traduzir esse refrão para a amiga americana, mas ela entendeu o espírito da coisa. 

Chegamos à tarde em Sarria, na maior fome, e descobrimos que o hotel reservado ficava há uns 5 Km fora da rota de Santiago. Putz grilo! Quer saber, ninguém aqui tacou pedra na cruz, então vamos deixar de frescura. Resolvemos pegar um taxi até o hotel e no dia seguinte, Luiz nos deixaria outra vez no mesmo lugar para retornar à caminhada.  

Foi muito engraçado entrar em um carro, não tinha muitos dias que havia saído de casa, mas parecia tão estranho. A passagem de tempo no Caminho é muito relativa. Acontece tanta coisa em um dia e às vezes é tudo tão intenso. É como se seguíssemos outra contagem e me sentia meio solta no calendário. 

Chegamos ao tal hotel, pouco afastado do caminho, mas muito bom. Quarto grande e uma enorme banheira que me fez perder a hora do jantar. Perdi a hora! Fui a última a descer, completamente atrasada, logo eu, tão britânica que chego a ser chata. Minha amiga estava preocupada, sabia que eu estava com fome, e com fome seria impossível atrasar para o jantar. Deve ter acontecido alguma coisa! Deve mesmo, porque esqueci que estava com fome e isso, para quem me conhece, é algo muito raro! 

Não era a única faminta, o amigo brasileiro mais jovem também estava. Engraçado, a gente se parecia muito, o mesmo signo, coisa que reconheci de cara e ele perguntou logo em seguida. Na verdade, em muitas de suas atitudes, me via quando era mais jovem. Tomou alguns caminhos que eu poderia, mas não fiz. Não sei se ele tem consciência do papel público que o aguarda no futuro, provavelmente sim, e é grande. 

O amigo brasileiro, mais velho, era uma impressionante mistura do meu sogro e meu cunhado. A voz era escrita do meu cunhado, algumas atitudes também. O gestual, a maneira de olhar e mover a cabeça para trás mexendo na barba, o senso de humor, apesar de bem mais novo, era meu sogro escrito. Como é que pode? E o senso crítico caústico, advinha quem me lembrava? Digamos, que sentia uma certa afinidade inquietante. Sua condição física era um milagre! Fumava para cassilda, bebia pacas, era o mais velho do grupo e o que andava mais rápido e com mais disposição! Mistérios do Caminho… 

Minha amiga tinha a confiança que as coisas se resolvem por si só e, portanto, para que se preocupar? Eu sempre acho que as coisas acontecem porque alguém faz, continuo acreditando nisso, mas bem que queria, de vez em quando, ter essa habilidade de deixar para lá. Que os outros resolvam sem me sentir tão responsável ou culpada. Manter tudo controlado e rígido é muito chato. Ela se divertia mais. 

Conheci outras pessoas, mas os três foram os mais presentes e importantes. Os motivos de cada um, parte desconfio, mas nunca quis perguntar diretamente. E se me voltasse um: e você? Com minha amiga, conversamos mais a respeito no início; com os dois, juntava partes de conversas como pequenas peças de quebra-cabeças. E agradeço ao fato de todos eles terem entendido ou ao menos respeitado minha dificuldade em falar sobre isso. Ou talvez simplesmente não importasse, todos já tínhamos muito em que pensar. 

Cada um deve ter sua própria visão e interpretação do caminho. Aqui, só conto a minha. 

Jantamos muito bem, acho que se não o melhor, um dos melhores jantares da viagem. O garçon, um senhor galego, uma simpatia. Demos nossa tradicional chutadinha de balde nos vinhos, enquanto esperávamos Luiz e o marido da minha amiga, que chegaram por volta das onze e meia da noite. 

Algumas coisas parecem que não mudam. Tenho a tendência ao exagero, gosto do vinho e da sensação de tomá-lo, gosto de comer bem e sempre beiro a gula. E aquela historinha que não beberia e comeria leve durante a viagem, foi para o saco desde o primeiro dia. Acredito que ao exagero não chegava, mas a abstinência nunca me fez muito sentido. Gosto do prazer. 

Era bom ver Luiz, me trazia uma sensação de segurança e normalidade, um pouco de casa. Queria contar um milhão de coisas, mas me sentia completamente incapaz de resumir. Desejei que ele tivesse feito o trajeto comigo, visse o que vi e passasse pelo que passei. Queria compartilhar de alguma maneira toda aquela história e não sabia como. Como iria explicar que estava completamente quebrada, mas amarradona, feliz da vida. 

De alguma maneira, acho que parte ele entendeu. Disse que se empolgou com a idéia e que da próxima vez faria a caminhada também. Fiquei feliz, era confortante saber que um dia ele vai entender exatamente o que estava sentindo naquele momento. Não porque contei, mas porque viveu. 

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