VII – O feijão não resolveu

Caminhamos em direção ao albergue de brasileiros, bem na entrada de Vega de Valcarce, para jantar. Não fazia muito tempo que estava fora de casa, mas uma saladinha e um arroz com feijão não era má idéia. 

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Infelizmente, o vinho continuava a ser oferta na casa. Ali já tinha puxado meu carro, dei dois ou três goles para fingir que acompanhava, mas eles continuaram bebendo. Fui sentindo um clima meio desagradável, não sabia muito bem porque, mas aprendi que só devo ficar onde me sinto bem.

A conversa alcoolizada com os alemães da mesa de trás me soava em tom de deboche, não pela intenção, mas pela completa falta de sintonia. Logo após o jantar, quando vi que a conversa ainda se esticaria, com mais fumaça de cigarro que me interessava, me bateu os cinco minutos e resolvi dar uma voltinha. Fui tirar algumas fotografias dos arredores. 

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Fiquei de voltar depois. Queria ficar um pouco sozinha. Liguei para o Luiz, estava preocupada. Reclamei um pouco da companhia. As pessoas me pareciam muito legais, mas simplesmente estava em outra onda. Não sou nenhuma santa, mas não fui ali para beber ou para farras, já tenho isso onde moro. Não dou conta de ter o mesmo ritmo se bebo.O dia seguinte seria o mais difícil em termos de caminhada, será que só eu achava isso? 

 

Acabei voltando ao local do jantar, afinal de contas, precisava pagar minha conta e encontrar minha companheira de quarto. Assim que cheguei no tal albergue, os rostos dos dois brasileiros eram aborrecidos, havia chegado mais um casal de italianos, amigos deles e minha amiga estava completamente lárari-larará.  

 

A confusão foi com a responsável pelo albergue que, aparentemente, havia tratado mal o casal de italianos que acabava de chegar. O amigo brasileiro acabou discutindo com ela e foi o maior barraco. Daí, a idéia era arranjar outro lugar para o casal de italianos ficar. 

 

Minha amiga amarrou num papo com a italiana e convenceu o casal a tentar achar um lugar também na casa rural que estávamos todos hospedados. Com a empolgação etílica, não deve ter lembrado que o quarto custava 40 euros e, para um casal que precisava ficar em albergue por falta de fundos, e que paga por noite entre 3 e 8 euros, talvez não fosse a melhor solução. Felizmente, o amigo brasileiro percebeu a situação e os convidou a pagar o quarto, aproveitando a desculpa de ter criado a confusão. Acho e espero que os italianos não tenham percebido o rolo que estava acontecendo. 

Resolvida essa etapa, estava crente que ia dormir, mas a idéia era ir para o bar, em frente ao hotel, para os italianos comerem alguma coisa e meus amigos darem conta de mais duas garrafas de vinho que haviam ganhado pela indicação dos novos hóspedes e pelo consumo diário. 

Minha amiga foi comprar mais cigarro com um dos amigos brasileiros. Fiquei com o outro brasileiro, que me parecia um tanto cansado também da situação, e o casal que era até simpático, mas fumava como uma chaminé. E eu pensando, que raios estou fazendo aqui? Ninguém merece! 

Sabe de uma coisa, queridos, meu cordial boa noite! Fui para o quarto dormir e pronto. 

Bom, pelo menos tentei. A cantoria alta no bar, não me deixava pegar no sono e a essa altura já estava com o saco arrastando e pensando que talvez fosse uma boa idéia sugerir delicadamente no dia seguinte que minha amiga se entrosasse com os brasileiros e me deixassem caminhar em paz. Definitivamente, naquele ritmo não queria continuar. 

Lá pelas tantas, minha companheira de quarto chegou, até silenciosa, e pensei, cassilda, até que enfim vou dormir um pouco! 

Não demorou muito tempo e ouvi o som que não queria acreditar. Acendi a luz para ver o que acontecia e o quadro que encontrei foi ela passando mal horrores. Comecei a chamá-la mas ela não falava absolutamente nada, não reagia, olhava para o vazio e ficava deitada vomitando deitada mesmo. 

Sim, já passei mal por causa de bebida, já fiquei bem ruim e também ajudei algumas ressacas alheias. Mas daquela maneira, nunca havia visto. Fiquei nervosa achando que poderia ser alguma reação alérgica ou sei lá o que. Sabia que ela tinha alguns problemas alérgicos e só torcia para que fosse apenas uma porranca. 

Sacodia, perguntava e ela não me respondia nada, só vomitava, babava e olhava para o nada. O que que eu faço? 

Desci correndo e bati no quarto dos meninos para saber o que eles haviam consumido. Ninguém me respondeu. Subi de novo e não sabia se ligava para o marido dela, se chamava uma ambulância…  mas vou chamar que ambulância? Estamos no meio do nada! 

Na falta de qualquer outra opção, pensei, ela não é louca, não deve ter consumido alguma coisa que não pudesse, isso só pode ser álcool. Consegui sabe-se lá como, colocá-la embaixo do chuveiro e, enquanto ela melhorava na água, cobri o vômito da cama como pude. 

Ela voltou para cama e deitou. Não me parecia nada bem, mas pelo menos estava reagindo. Entretanto, pouco depois voltou a passar mal. Meu medo é que, de acordo com a posição, ela sufocasse, isso é perigoso. 

Não aconteceu, mas passei o resto da noite com a luz acesa e tomando conta. Uma  mistura de preocupação, raiva, medo e uma vontade enorme de sair correndo. 

Logo que amanheceu, meu despertador tocou e ela se mexeu. Perguntei, melhorou? E finalmente ela me respondeu lúcida, melhorei. Bom, então preciso dormir um pouco, não preguei os olhos durante a noite, talvez seja melhor ir só até O Cebreiro e ficar por lá. Míseros 13 Km, mas era uma subida íngrime e não achava que poderia mais do que isso. 

De manhã, não sei como ela aguentou levantar e, sinceramente, estava muito aborrecida para perguntar. Estava numa mistura de preocupação por ela, pena dela levantar daquele jeito, mas ao mesmo tempo muito brava por ter me envolvido naquilo tudo. Tomei de cara uma aspirina e me arrumei o mais rápido que podia. No quarto não dava para continuar, não estava nada agradável. 

Como soldado que se prepara para a batalha, fiz o melhor curativo para os pés de toda a viagem. Coloquei um suporte no joelho mais fraco. Peguei os dois sticks de caminhada, ao invés do único que estava usando. Chovia razoavelmente e, para complicar um pouco, não havia levado capa de chuva. Tive uma idéia que foi providencial, havia levado um tipo de toalha, muito leve e de alta absorção (viva a tecnologia!), pois coloquei a tal toalha na frente do corpo, presa pelas alças da mochila. Essa, por sua vez, tinha uma capa própria que a cobria e protegia as roupas e minhas costas. Na cabeça o chapéu e no peito a concha de peregrino. Só faltou pintar a cara de vermelho. Nesse dia, estava para guerra. 

Antes de sair, quando fui lavar as mãos, reparei na embalagem do sabonete que dizia algo como: a natureza te protege. Essa frase me salvou ou, no mínimo, me divertiu em alguns momentos mais tarde. 

Fui entregar a chave ao casal dono da casa rural, antes de ir embora. Que vergonha. Não conseguia olhá-los nos olhos só de imaginar quando fossem limpar o quarto. Espero que não se lembrem do meu rosto. 

Encontrei os dois brasileiros e o casal de italianos tomando café, mas nem tinha vontade de cumprimentá-los, estava aborrecida com eles também. Mal humorada, precisava por a culpa em alguém e, em um julgamento precipitado, achei que eles poderiam ser uma má influência. 

Saímos as duas em direção à subida do Cebreiro, sem tocar no assunto daquela noite infernal.  

Lembrei do meu amigo que me disse que raiva pesa nos ombros e resolvi tentar deixar aquilo para trás. Era difícil, mas ia tentando lembrar de músicas ou me concentrar no caminho. 

Em uma parte íngrime da subida, me escapou pela boca: isso deve servir para alguma coisa! A legenda seria, caraca, que idéia de jirico! Ela riu, e notei que já não estávamos aborrecidas, outras prioridades nos preocupavam. 

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Muitos sentimentos contraditórios passaram pela minha cabeça nesse dia. Às vezes estava cansada e reclamando da dificuldade e, de repente, via uma paisagem tão interessante que simplesmente me esquecia do que estava pensando antes. 

Não tenho certeza absoluta, mas tenho quase certeza que foi nesse trecho que uma senhora cantou para a gente. Assim, do nada, a cumprimentamos e ela começou a dizer que o próximo pueblo já estava bem perto, como se quisesse nos consolar. E daí começou a cantar um refrãozinho afinado sobre a mãe dela. Que coisa bonita! 

Por outro lado, quanto mais subíamos, no meio de toda aquela chuva, a temperatura caía vertiginosamente. Chegou pelo menos a uns 5 graus, minhas mãos se queimaram de frio e a roupa molhada não ajudava em nada.

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Mas tudo bem, chegamos ao Cebreiro e fui logo procurar hospedagem. Não tinha, o lugar é pequeno e a cidade, em função de toda aquela chuva, já havia lotado. 

Estava no meio da rua, na chuva, sem ter onde ir, molhada, com frio, com fome, sem dormir durante à noite, sem poder desabafar com ninguém. Em outras palavras, fodida mesmo!  

Por duas vezes passei ao lado de um taxi e não foi fácil resistir a tentação de resolver aquela história de uma vez por todas. Quem iria saber? Que diferença faria? Por que não entrava na bosta daquele carro de uma vez? 

Porque não, eu saberia. E não ajudava em nada me sentir uma vítima. O que de fato poderíamos fazer? 

Entramos meio atordoadas em um restaurante para comer, tentar secar um pouco a roupa e pensar no que fazer. Liguei para o Luiz séria e pedi ajuda. Pedir ajuda me custa muito. Tinha vontade de desabafar, chorar, de contar a noite toda, mas não dava, precisava me concentrar no que era importante. Pedi para ele tentar reservar para a gente qualquer lugar em Alto do Poio, que ficava a mais ou menos 10 km dali. Era outra subida, mas fazer o que, era o lugar mais próximo com algum tipo de hospedagem. Meu medo era que, como eu, outras pessoas tivessem chegado ao Cebreiro e, na falta de hospedagem, tivessem seguido viagem mais cedo.  

Às vezes a gente fica assim, egoísta e competitiva. Quando vemos que muita gente começa a passar antes, pensamos que pode ser concorrência para um bom lugar onde dormir. É feio, mas é o instinto de sobrevivência que fala mais alto, sinto muito, farinha pouca, meu pirão primeiro. 

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Depois de almoçar, fui a uma das lojas do pueblo, onde comprei um agasalho seco e uma capa de chuva vermelha enorme que, ao cobrir a mochila, me deixava parecida a uma mistura de chapeuzinho vermelho, corcunda de notre dame e um cruz credo. 

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Ainda na loja, vi um dos amigos brasileiros conversando com minha amiga, acho que estavam almoçando por ali, mas a essa altura, tinha pressa. No caminho, fui pensando, por que fiquei com raiva deles? Eles não me fizeram nada de mal. Ninguém obrigou ninguém a beber nem a fazer nada. Pelo contrário, em nenhum momento passaram o limite do respeito. Cada um estava na sua própria onda, e a verdade é que eram divertidos. Na próxima parada, revejo minha postura em relação a isso. Que diferença iria fazer, a noite já havia passado e estávamos todos sãos.  

A subida ao Alto do Poio me pareceu ainda mais dura. Luiz havia conseguido reservar um quarto na única pousada do lugar e nos dirigimos para lá como quem busca um oásis. 

Não gostei do cheiro já na porta e o dono, um espanhol dos mais grosseiros, me recebeu com aquela cara de como assim? Mas a reserva era para amanhã… Respirei fundo e disse, não, foi para hoje. E afinal, há um quarto? Ele respondeu que sim e fiquei me perguntando por que diabos então estávamos naquela discussão absurda. 

Pedi para ver o quarto e ele me disse que não ficava mostrando quarto para ninguém, só mostrava a quem fosse ficar. Respondi no mesmo tom que só ficaria depois de ver o quarto. Nesse momento, já desconfiava que não ficaria ali. Chamei minha amiga que não estava ouvindo a conversa e perguntei, você está atenta ao que está acontecendo? É melhor você participar dessa conversa porque não sei se vou ficar aqui, você consegue continuar? 

Subimos para ver o tal quarto onde descobrimos que o banheiro era compartilhado, informação diferente da que ele havia me dado antes de subir. Respondi indiferente que não ficaria e pouco me importou o que ele pudesse dizer depois. Descemos ao bar, que também era dele, e resolvi tomar um café, uma água e retocar os curativos para seguir viagem. Difícil explicar, mas ele não me atingia, tanto que continuamos alguns minutos por ali, como se ele não existisse. Incrivelmente, ele se sensibilizou e tentou ser mais educado, se ofereceu para tentar reservar outro lugar, já me adiantando que não encontraria nada. Respondi educadamente, mas firme, que não precisava. Eu não precisava. 

Saí e fui ligar para o Luiz, não tive uma chance de falar com ele sozinha durante o dia todo e estava praticamente explodindo. Contei a ele o que aconteceu à noite e a via sacra que estávamos passando. Ele me perguntou se queria que fosse me buscar. Como assim me buscar? Do que você está falando? Eu não fiz nada errado, estou preparada e pronta para seguir viagem. Tinha vontade de chorar, de xingar, mas nem passava pela minha cabeça desistir ali. 

De longe, avistei os amigos brasileiros chegando, o casal de italianos também já estava no mesmo bar, que ficava no andar de baixo da tal hospedagem. Minha raiva boba havia passado e achei bom encontrá-los. Foi confortante ver rostos conhecidos. Ao mesmo tempo, me perguntava se eles também não teriam se aborrecido com minha pouca atenção ao longo do dia. Quando não gosto de alguma coisa fica escrito na minha cara, não é possível que eles não tivessem notado. Dificilmente não me ouviram bater na porta de madrugada, quando queria saber o que haviam consumido e decidir o que fazer, claro que escutaram. Podiam não saber o que queria, mas escutaram, e também não tocaram no assunto no dia seguinte. Nem eu. Talvez, como entendi depois, isso não fizesse mais nenhuma diferença. 

Voltei ao bar com aquela cara de bunda e pedi um café. Avistei a placa em direção à Triacastela, o próximo destino com hospedagem, mais 14 km.  

O que aconteceu foi que, ao me sentir no fundo do poço, pensei, pior não vou ficar. Havia passado do limite. Minhas coisas estão secas na mochila, meus pés estão bem, estou com saúde e não tenho mais frio. E sabe de uma coisa, se tiver que dormir na rua, que se dane, também tenho um saco de dormir. A natureza não ia me proteger? Pois farei minha parte, mas só farei o que realmente precisar. Incrivelmente, me acalmei e fui invadida por uma onda de otimismo. 

Nossos amigos também tinham por destino Triacastela e perguntei se poderíamos acompanhá-los. Nos receberam de bom grado e me trataram com generosidade maior do que a minha pela manhã. 

Ainda ouvimos meia dúzia de pérolas desaforadas que o dono da hospedagem distribuía aos úmidos recém chegados. Como, por exemplo, dizer a uma senhora com idade para ser minha mãe que jogaria sua bicicleta no lixo se ela perguntasse mais uma vez onde deveria guardá-la. A propósito, o preço que deu ao quarto já era o dobro do que havia me dado. E a historinha da “reserva, mas que reserva? “ foi repetida pelo menos umas três vezes! 

Ainda no mesmo bar, os brasileiros contaram que, ao sair de Vega de Valcarce, chovia de cair o céu. Passaram por um morador, que cuidava de sua horta, com um guarda-chuvas, como se nada estivesse acontecendo. O cumprimentaram com um buenos días, no que ele respondeu com simplicidade e bom humor: poco úmedo. Putz! Caindo o mundo e ele responde tranquilamente que estava um pouco úmido. Isso se tornou outra piada do caminho e as situações mais difíceis eram descritas como “poco úmedo”. 

Quer saber, fiquei feliz em sair dalí, mesmo que estivesse un poco úmeda . Saímos em seis pessoas, em direção à Triacastela. Segui a viagem como nova, as pernas andavam sozinhas. Parecia um robozinho motorizado com os dois sticks, a gente anda engraçado com eles, mas ganha muita velocidade e distribui melhor o peso.  

Estranho, desenvolvi um jeito de pensar que fazia ter a sensação que os pés levitavam. Era só na minha cabeça, é óbvio, mas funcionava. Com o tempo, aprendi a fazer isso também com a mochila. 

Paramos umas duas vezes para descansar. Na primeira, liguei para o Luiz afim de tranquilizá-lo. Queria que ele soubesse que ia ficar tudo bem e que não estava sozinha. Acho que não consegui ser assim tão convincente, mas era o máximo que podia fazer naquele momento. O amigo brasileiro achava que não deveria ter ligado para ele antes, pois quem está fora imagina o quadro ainda pior e fica preocupado. Concordava com ele, entretanto, com quem mais poderia desabafar naquele momento? Era com Luiz que contava. Depois até me arrependi em preocupá-lo, por isso liguei de volta. Enfim, era tarde e o que estava feito já estava. 

Foi a primeira vez que percebi que meu agasalho tinha uma enorme seta amarela, como as que sinalizam todo caminho, e eu parecia um sinal de trânsito. A minha amiga também tinha uma igual, de outra cor. A verdade é que entrei na loja morta de frio e pedi qualquer coisa quente que coubesse em mim, o vendedor me mostrou aquela, coube, aquela foi. 

Nisso, passa uma manada de vacas! Bem do nosso lado. Fui eu e o amigo brasileiro tentar tirar fotos entre elas. Não estava muito à vontade, elas são chifrudas e minha cara na fotografia está mais desconfiada que outra coisa. Não sabia se olhava para câmera ou se tomava conta das vacas.  

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Essa cena foi se repetindo ao longo do caminho, em outros dias também. Há momentos em que precisamos encostar no canto da trilha para as vacas passarem. Eu não gostava muito dessa história e acho que era a que mais se escondia. No final, estava um pouco mais confiante, não vou dizer que eram minhas melhores amigas, mas a proximidade delas não me assustava mais. Brincava que até Santiago sairia abraçada com uma. 

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Muito legal é o trabalho dos cachorros, verdadeiros profissionais, que ajudam aos pastores a colocar ordem na casa. São eles que acompanham pela lateral do rebanho, sem deixar que as vacas saiam da fila e se percam. E uma história hilária, uma vez, estávamos andando em grupo, próximo a um desses rebanhos, onde havia um cão pastor. Estava ao lado de um dos amigos e fui desviar de uma poça ou algo assim. O movimento do meu corpo foi como se fosse sair da fila. Dei de cara com o cachorro, que latiu bravo para mim, me enquadrando direitinho e me fazendo voltar! Gente ou vaca, pode ir para fila! E eu fui, vou discutir com o chefe? Eu, hein! 

Devido a essa frequência, digamos bovina, parte do nosso trajeto passou a ser conhecido como “circuito lama ou bosta”, onde as opções que haviam são essas mesmo. Você escolhia, piso na lama ou piso na bosta? Às vezes, não havia escolha e outras era uma única massa orgânica marrom escuro esverdeado. 

E quando era na subida? Naquele esquema que você quer respirar fundo para ganhar fôlego e entra aquele cheiro de merda pelas suas narinas? 

Diante dessa situação, me lembrei da historinha do passarinho na bosta. É assim, um passarinho estava com frio e começou a piar reclamando para uma vaca. Ela ficou com pena, foi lá e cagou na cabeça do passarinho. Ele se assustou, mas percebeu que no meio daquela bosta até que estava quentinho e cômodo. Então, começou a piar outra vez, agora de felicidade. Passou um lobo que o escutou, o tirou da merda e o comeu. Moral da história: nem sempre quem te põe na merda é seu inimigo, nem sempre quem te tira da merda é seu amigo, e finalmente, quem está na merda não pia! 

Ia caminhando e rindo sozinha. O versinho imaginário marcava meu ritmo, quem-tá-na-mer-da-não-pi-a. 

Estava bem fisicamente, só diminuí o ritmo um momento para acompanhar o último caminhante que estava um pouco machucado, mas melhorou logo em seguida. 

Umas nove e meia da noite, entramos por Triacastela! Quase 40 Km depois, caraca, conseguimos! 

Ficamos em um hostal simples, limpo, com banheiro privativo e atendimento educado. A sensação era de estar em um hotel 5 estrelas! O casal de italianos ficou logo do lado, em um albergue que tinha o luxo de possuir máquina de lavar e de secar. 

Sorte a deles, porque a nossa roupa, lavada tão tarde, obviamente não secou. Mas vamos por partes. 

Tivemos que correr para pegar algum restaurante aberto e jantar. O estômago colava nas costas. Bom, correr é maneira de dizer, andávamos como uns zumbis de filme de terror. Aquela coisa mancante que parece que vai cair um pedaço. 

Muito engraçado isso. É impressionante a capacidade do corpo em se recuperar durante a noite de sono. Quando a gente chega na cidade e põe as papetes, parece que não vamos conseguir caminhar direito por uma semana. Mas no dia seguinte, assim que a musculatura esquenta, lá estamos nós, a pleno vapor. 

O jantar foi ótimo! Animada, acompanhei no vinho, sem exageros, sem culpa e sem cobranças. 

Sei que aquela noite tive o sono dos justos. Dormi pesado, não tinha mais raiva de ninguém, nem de mim. Tem coisa mais importante na vida para a gente pensar. 

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