VI – Villafranca del Bierzo – Vega de Valcarce

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O plano inicial era ir de Villafranca del Bierzo até O Cebreiro, são cerca de 28 km. Entretanto, havia um pequeno detalhe, O Cebreiro se encontra há 1.300 metros de altitude e é conhecido como uma das subidas mais chatinhas do caminho. No dia anterior, chegamos meio mortas em Villafranca, com menos quilometragem e sem a subida. Achei prudente e sugeri que ficássemos por Vega de Valcarce, 19 Km de Villafranca e pouco antes da subida ao Cebreiro. 

Dessa maneira, não precisaríamos sair tão cedo, dava para tomar o café no hotel, às 8:00 horas e sair com calma. E assim foi. 

A caminhada foi mais fácil que a do dia anterior, me sentia bem e, apesar de ser apenas o segundo dia, começava a incorporar a rotina. Em alguns trechos do caminho, pensava quanta gente havia passado por ali e através da energia de quantas histórias estávamos nos embrenhando. Ficava emocionada, mas disfarçava. 

Aprendi a cumprimentar as pessoas pelo caminho. Todo mundo responde e ficava de farra com minha amiga, viu como somos populares? Todo mundo conhece a gente aqui!  

Entre os caminhantes, a gente fala um para o outro “buen camino”. E para os moradores dos pueblos, o mais normal é um “buenos días”. De maneira geral, vinha com um sorriso que me fazia sorrir também, ou era vice-versa, não sei.  

Mas eram os moradores mais antigos os que me emocionavam. A maneira com que sorriam ou desejavam um bom dia tinha um respeito especial. Não era um respeito submisso, mas o de alguém que te reconhece e te apoia. Faz você ter mais vontade de caminhar. Passei por situações complicadas, as quais vou relatar no devido tempo, mas posso garantir que se não todos, quase todos os meus “buenos días” saíram com um sorriso sincero de quem deseja que o outro tenha um dia bom. 

Aos poucos, minha roupa de mendiga-peregrina começava a ter funções de uniforme de super herói. Com ela eu tinha alguns poderes, me identificava e não precisava me apresentar, era como se fosse muito claro quem era e isso parecia estranhamente familiar. Era bom fazer parte de um grupo outra vez. Há quanto tempo preciso provar que sou eu mesma? Quantos recomeços? E de repente, no meio do nada, não precisava dizer minha nacionalidade, minha profissão nem meu sobrenome. Alguns dizem, se querem, mas que diferença faria? Pois nenhuma, papel não anda, na verdade pesa. Estava ali e pronto. 

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Com ou sem super poderes, precisava dormir em algum lugar. Encontramos uma casa rural que era uma gracinha. Tudo simples, muito limpo e bem cuidado por um jovem casal, donos do bar que ficava logo em frente. E o maior luxo, uma terraza do lado de trás, junto a um córrego charmosérrimo. 

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Mandei uma mensagem aos dois amigos brasileiros pelo celular, avisando onde paramos. Estávamos almoçando, justo no tal bar-restaurante em frente à casa rural e imaginei que eles fossem passar por ali para nos dar um oi, comer alguma coisa, e seguir o caminho com maior quilometragem. Eles decidiram parar também e pediram que reservássemos mais um quarto para eles, o que fiz logo em seguida. 

Ainda no restaurante, conhecemos uma senhora inglesa, que morava na França, de uns oitenta anos. Sozinha e, a propósito, almoçava com sua taça de vinho. Fiquei impressionada com seu pique. Aliás, isso é uma coisa muito interessante, a maioria das pessoas que encontrei pelo caminho era mais velha. Impressionante a resistência e determinação que tinham. 

Os amigos brasileiros chegaram. Com eles e a tal senhora, que também estava hospedada no mesmo lugar, fomos para a terraza tomar sol. Descemos ao córrego de água gelada, um dos amigos garantiu que seria um alívio aos pés doloridos. Se ele sabia o que dizia eu não sei, mas que funcionou, funcionou. 

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Aproveitamos para por as meias no sol para secar também. Ficava um pouco engraçado aquele varal comunitário com meias e cuecas (porque minhas calcinhas não ia colocar ali nem morta!), mas logo relaxei e curti muito a tarde. Em plena calmaria, não reparei que algumas nuvens se aglomeravam para a tempestade que me aguardava. 

Algumas garrafas de vinho foram tomadas, nas quais tive minha considerável participação. Achei que se até a senhora octagenária tomava seu vinhozinho, não seria assim tão má idéia. Entretanto, tenho meus limites e sabia que a caminhada do dia seguinte era pauleira. Comecei a me preocupar. Na hora que a água bateu no joelho, ou melhor, no tornozelo, parei, subi para tomar meu banho, fui até o centro comprar o café-da-manhã, passei na farmácia para repor o estoque de curativos e voltei para a terraza, afinal, havíamos combinado de jantar no albergue de brasileiros, onde nossos amigos passaram mais cedo, fizeram amizade e reservaram um feijãozinho. 

Durante esse período em que saí e fui fazer minhas coisas, minha amiga e os dois amigos brasileiros continuaram bebendo. Os dois me pareciam bem, mas minha amiga já falava um pouco diferente.  

Na saída do hotel, em direção ao albergue onde fomos jantar, em determinado momento senti a cobrança dos dois amigos. Um me perguntou se ela estava bem, respondi que achava que sim e que ela que devia saber. O outro me perguntava se ela estava sob controle. Pensei, mas não disse: cassilda, você fica instigando, oferecendo bebida, cigarro e depois vem me perguntar se eu estou tomando conta? Pois não estou tomando conta de ninguém! 

Não está em mim tomar conta das pessoas. Todo mundo era maior e vacinado, ema ema ema… cada um com seu problema. Além do mais, possuía uma informação adicional, para ela era uma oportunidade de fazer algo por si mesma, e viria eu controlar? Eu, hein! 

É verdade que imaginei que essa história não passaria muito daí. No máximo ela acordaria com um pouco de ressaca no dia seguinte e, no próximo, seguraria melhor sua própria onda. Sei lá, vai ver ela precisava desabafar. Às vezes as pessoas precisam sair um pouco do controle. De mais a mais, pensei, tudo bem, o feijão resolverá isso.  

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