V – 29 de maio de 2007, o primeiro dia de caminhada

Levantamos às 7:00 horas, o que para mim é bem cedo. Não tinha tanto sono, a vontade de começar era maior. Levamos bem uma hora e meia para conseguir comer e sair. Muito por minha causa, descobri que demorava para burro até deixar os pés prontos. 

Praticamente, plastificava meu pé com compeed, um tipo de curativo mais sofisticado, específico para bolhas. Garanto que qualquer peregrino sabe bem do que estou falando. Além de melecar o pé de vaselina, para amenizar o atrito. O tempo todo meus pés foram a maior preocupação, pois os tenho demasiado sensíveis.  

Isso é uma coisa engraçada, o pé é o principal tema de conversação entre os peregrinos. O assunto sempre gira por aí, o que inclui demonstração de bolhas, curativos etc. Você vai perdendo completamente o pudor em relação a isso ao longo do trajeto.

No celular, em que só atendia ao Luiz, um recado bonitinho de uma amiga: que seja leve! Caramba, que responsabilidade, tem gente torcendo por mim. 

Mas voltando a caminhada, seguimos diretamente para o albergue, afinal de contas, o trajeto passava por ali e, lógico, não lembramos de perguntar no dia anterior para qual dos lados. 

Pouco antes de chegar ao albergue, bem no centro da cidade, resolvi começar a usar meu cajado improvisado. Era um desses sticks de trekking. Ele é flexível e tem um mecanismo que abre e fecha, muito simples. Pois simplesmente ele não queria abrir nem a pau! Não abria mesmo e chegou a me irritar. Resolvi atravesar a rua e pedir ajuda a um operário, certamente ele era mais forte que eu. E ele também não teve força para abrir, me emprestou duas chaves de boca para que eu mesma tentasse. Finalmente, consegui desenrroscar o raio do stick. Como é que aquilo podia estar tão apertado, se eu mesma apertei com minhas mãos e não tenho essa força? 

Prosseguimos em direção ao albergue. Passamos direto, claro, na direção errada. Quando começamos a ver aquelas setas amarelas ao contrário, o que seria o óbvio parecia só estranho. Contra vontade, porque detesto perguntar, pedi informação a um pedestre que nos indicou a direção correta.  

Voltamos boa parte do caminho, em direção ao centro da cidade, e adivinha onde é que a gente precisava entrar? Exatamente onde a porcaria do cajado engatou e atravessei a rua para pedir ajuda ao operário. Se estivéssemos prestando um mínimo de atenção, perceberíamos uma enorme seta amarela que indicava a direção correta, bem em cima da nossa cabeça! 

Será que era o caminho me avisando? Fui rindo sozinha, pronto, começou a esquisitice! 

Foi chato errar, mas no fundo, achei bom. Depois disso, podia ver setas amarelas e sinalização desde longe. Não é mal sinalizado, pelo contrário, mas era necessário estar atenta, mais do que justo. 

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Levamos quase uma hora para conseguir deixar a cidade, um trecho meio aborrecido, mas fazia parte. Depois melhorou, tinha mais cara de trilha e as cidades pela qual passávamos eram bem menores.  

Muitas hortas ao longo da estrada pequena e uma paisagem agradável. 

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Lanchamos em Cacabelos e descobrimos que levar alguma barra de cereal, tudo bem, mas levar sanduíche ou comida na mochila era bobagem, peso à toa. 

De Cacabelos à Villafranca é muito bonito, um pouco cansativo e com algumas subidas. Um aquecimento ao que nos aguardava no futuro.  

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Caminhamos nossos primeiros 24 km. Chegamos em Villafranca del Bierzo, a primeira parada. O fôlego ia muito bem obrigada, mas estava dolorida. Fazíamos mais ou menos 5 Km por hora. Meus pés, felizmente sem bolhas, retoquei a vaselina duas vezes durante o dia. Entretanto, os ossos dos pés doíam tanto que era como se alguém me enfiasse um ferro por dentro do pé e torcesse.

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A mochila fez um pouco de estrago. Pouco abaixo do ombro, tenho ossos altos e estava a um dedo de me esfolar o couro. Resolvi colocar um compeed preventivo ali também, no mesmo lugar onde a alça da mochila pegava. Em princípio, era um feito para os calcanhares, mas funcionou. Nas costas, na altura dos rins, tinha duas grandes marcas vermelhas, da mochila que foi batendo ao longo das horas, como um lutador que vai minando sua resistência com pequenos socos aparentemente inofensivos, com essa eu não contava. Foi melhor que imaginava, no dia seguinte, regulei a mochila e aprendi a não deixar que ela se movesse tanto. Ela não me incomodou mais. 

Escolhemos dormir em um Parador, muito bonito e nada barato. Achei que dalí por diante, dificilmente acharíamos algum bom lugar para ficar, melhor aproveitar o momento. Nem foi verdade, dormimos em bons lugares até o final, mas isso só pudemos descobrir a medida que chegávamos em cada parada. Então, vamos com um dia de cada vez, e naquele dia, decidimos que merecíamos uma banheira quente. 

Sinceramente, havia dado meu dia por terminado, me doía a alma e sabia que era só o começo. Minha amiga também estava muito dolorida e chegou a conclusão que precisava de medicamento, resolveu ir até a farmácia. Fiquei no quarto esperando, já pronta para pegar no sono. 

Pouco depois, chegou ela mais animada. Olha, o centro não é tão longe, não quer dar uma volta? Na verdade, não queria, mas puxa, também podia colaborar, né? Reuni minhas forças, calcei uma papete com meias, naquele estilo mendiga e fui andando com ela bem devagar. Parecíamos duas velhas!  

Mas quer saber de uma coisa, a medida que caminhava, mesmo devagar, ia melhorando e agradeci por ela ter incentivado nossa saída. Aproveitei e passei na farmácia, rotina diária, para repor os curativos. Sabe-se lá quando encontraría a próxima? Encontraria sempre, mas seguro morreu de velho. 

Sentamos na praça principal e ficamos fazendo hora com uma taça de vinho. O restaurante onde queríamos jantar, um antigo mosteiro, ainda estava fechado, só abria às 21:00 horas.  

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Quando tentávamos tirar uma foto, daquelas que a gente mesmo tira com o braço esticado, uma voz em português se ofereceu para ajudar a fotografar. Era um brasileiro que fazia o caminho desde o início e se convidou a sentar conosco. Talvez no Brasil ficasse cismada, mas a verdade é que me pareceu completamente natural, como não? Era simpático, falante, uns cinquenta e poucos anos, advogado e com uma enorme barba grisalha. Sua figura realmente chamava atenção. Logo depois, chegou outro brasileiro, mais jovem, pareciam pai e filho, mas não eram. A história era curiosa, ambos eram advogados políticos, mas em lados opostos, haviam se conhecido naquele mesmo dia e resolveram dividir hospedagem. Os quartos duplos saem muito mais em conta. 

Dalí fomos jantar juntos, ainda sem saber como essa cena se repetiria ao longo da viagem. Foi divertido, demos boas gargalhadas. Um deles levava um celular espanhol, trocamos o número e ficamos de nos encontrar pelo caminho. Com sono, minha amiga e eu voltamos para o hotel, não mancava mais e estava otimista para o dia seguinte. 

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