IX – Sarria – Portomarín, a primeira bolha a gente nunca esquece

Acordamos cedo e me despertei séria. Precisava de uma disciplina alemã para não entrar no carro com Luiz e deixar aquilo tudo. Que tentação! O que estou fazendo aqui mesmo? Por que simplesmente não pôr essa bosta dessa mochila na mala e aproveitar o ar condicionado do automóvel? Por que não sento com eles num bar e curto o fim de semana? 

Porque não. 

Ele me perguntou, já encarnou a peregrina? Sim, não tinha jeito, entrei no meu transe de arrumar mochila e fazer os curativos dos pés. E nesse dia tinha um problema complicado, não tinha nenhuma meia seca. Tentei usar uma emprestada do Luiz, mas não deu certo, fui com a menos úmida e o resto foi pendurado de fora da mochila. Segundo o marido da minha amiga, pareciam uns peixinhos. 

Luiz nos deixou exatamente de onde saímos da rota. Ninguém cogitou ir nem mais, nem menos. No carro, o telefone dele tocou em viva voz. Era um amigo que eu gostava, mas não queria falar com ninguém, tudo que me remetia à vida fora do caminho me atrapalhava, soava fora de lugar. É radical, mas era assim. O carro estava me irritando. 

Atravessamos Sarria e ainda não havíamos alcançado a primeira pausa de descanso, quando recebi a mensagem do Luiz. Eles já haviam chegado em Portomarín e encontrado hotel. Como os tempos se medem diferente quando você está a pé e de carro! Resolvi desligar o telefone, melhor. Na verdade, durante todo trajeto costumava desligá-lo. Quando parava, checava se havia alguma mensagem. 

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Mesmo desligando o celular, deu uma vontade danada de chegar logo, tanto em mim como na minha amiga. Apressamos o passo e abrimos frente em relação aos amigos brasileiros. A meia úmida já havia começado a fazer seu estrago. Na pressa de chegar, demorei muito a sentar em alguma parada e colocar um curativo no local. Quando o fiz, era tarde, nasceram duas inconvenientes bolhas no calcanhar: uma na parte lateral, menos incômoda, e outra bem embaixo, que foi minha cruz até Santiago. 

Depois disso aprendi, se tiver qualquer desconfiança que vai nascer uma bolha, que a mochila está mal posicionada, enfim, qualquer coisa que precise ser conferida ou reparada, é melhor fazer o mais rápido possível. Já dizia o velho Murphy, nada é tão ruim que não possa piorar! 

Nesse mesmo trecho, quando ficamos sozinhas, finalmente ela tocou no assunto da noite difícil que tivemos em Vega de Valcarce. Parecia um pesadêlo distante, que já não tinha certeza se realmente havia acontecido. Ela pediu desculpas e fiquei com vergonha de ter me aborrecido tanto. Certamente havia sido mais difícil para ela que para mim. Isso tinha sido há tanto tempo … Vamos deixar isso para lá. Achava que já havia esquecido, mas só depois que conversamos me senti mais leve.  

Nesse momento, percebi que o dia abriu e éramos contornadas por borboletas, por várias que nos rodeavam ao longo do caminho. Elas estavam lá pelas flores, mas quis acreditar que era por minha causa. Queria acreditar que era capaz de atrair borboletas, que tinha poderes para controlar o tempo e que era uma pessoa boa.  

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Muita gente quer saber se o caminho possui algum poder especial, místico, sei lá. Como é que vou responder isso? E que diferença faz o que responder se as pessoas só enxergam o que querem e mesmo assim insistem em um sim ou um não absoluto. Não existe uma verdade absoluta, posso tentar descrever o que vi e senti, e mesmo assim será impossível uma conclusão absoluta, irrefutável.  

O que posso contar é que é um trajeto trilhado há anos e anos por gente que busca, ou que acredita, ou que quer mudar de alguma maneira, ou tudo isso junto e sabe-se lá mais o que. E que quando tomamos a decisão de trilhá-lo, também nós buscamos alguma coisa e vivemos em uma situação limite, uns mais outros menos, mas dá no mesmo, porque os limites também são diferentes entre as pessoas. 

É difícil admitir que temos o bem e o mal dentro de nós. Sabemos, mas confrontar esse lado considerado mal é difícil. Nas situações de limite a gente sempre quer acreditar que o que vai saltar é a determinação, a força, o sucesso. Mas muita vezes, o que salta é o egoísmo, a crueldade e a mesquinharia. Por uma simples questão de sobrevivência, ou porque talvez seja parte da nossa natureza. Portanto, quando me perguntam se a energia do caminho é boa ou má, só consigo pensar que é humana, às vezes é boa e outras é má, mas é um mero reflexo do que somos. 

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Vive-se de maneira muito simples e preenchendo necessidades básicas. Há pouco ruído de carro, de televisão e de tudo mais que nos distrái na rotina diária. Você escuta melhor, vê melhor, sente mais, por um motivo óbvio, está prestando mais atenção. Seus instintos estão aguçados, é propício perceber mais intensamente tudo que te cerca. 

O que cada um vai ver? Isso é problema de cada um. 

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2 comentários em “IX – Sarria – Portomarín, a primeira bolha a gente nunca esquece”

  1. Adorei sua redação porque resume tudo que sentimos, risos… TEnho uma foto nessa árvore… acabei de chegar, fiz o trajeto saindo de Sarriá até Santiago, do dia 5 de abril ao dia 10. Um abraço fraterno de Bene.

  2. Oi, Bene! Obrigada e seja bem vinda! Estou voltando agora ao Caminho, pela quarta vez. Vou de Sarria a Santiago, para meu marido pegar a Compostelana e de lá queria ir até Finisterre a pé. Esse trecho de Santiago a Finisterre é o único que ainda não fiz. Besitos

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