III – 28 de maio, as templárias

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Saímos para comer e conhecer a cidade. Pontferrada é conhecida por seu enorme castelo dos Templários. O nome se deve à uma ponte de ferro por onde atravessavam os peregrinos que descansariam em segurança nesse castelo. 

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É uma cidade que mistura o moderno e o antigo. Aliás, essa mistura está presente por todo o caminho, a coisa do urbano se alternando com o rural. Às vezes, passamos por trechos muito rurais, no meio das vacas, onde parece que o progresso nem triscou. Outras, margeamos uma longa estrada com altíssimos viadutos de concreto. Mas isso só veríamos depois. 

Ainda em Pontferrada, fomos direto ao albergue providenciar a credencial de peregrina da amiga que me acompanhava e colocar o primeiro carimbo na minha credencial, feita em Madri mesmo.  

Essa credencial é o seguinte, é como se fosse um boletim de cartolina, parecido aos boletins de colégio, onde há vários espaços para carimbos. Ao longo do caminho, você vai carimbando para provar que passou por ali. No final, já em Santiago, você vai com essa credencial carimbada pedir sua Compostelana, que é um tipo de diploma onde consta seu nome e diz que você trilhou o caminho e blá blá blá. Entre nós, é uma bela jogada de marketing da Igreja Católica, mas deixarei meu veneno para ser destilado mais tarde. 

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De qualquer forma, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A instituição pode ser questionável, mas as pessoas e suas crenças devem ser respeitadas. Não se deve tirar o mérito dos peregrinos, e hoje sei na pele o que custa chegar lá. Conseguir os carimbos pelo caminho é motivador e muitas vezes divertido, funciona como pequenos prêmios de valor simbólico. É como se estivéssemos construindo nossa história. 

Tomamos a decisão de não dormir nos albergues, a não ser que fosse estritamente necessário. Levei um saco de dormir para esse caso que, felizmente, não aconteceu. 

Os albergues oferecem vantagens e desvantagens. A principal vantagem, apesar de saber que vai ter gente se remexendo, é o preço. Não digo todos, mas a grande maioria das pessoas que se hospeda ali é porque não pode pagar uma hospedagem privada todos os dias.  

Há uma outra grande vantagem sim, que é a convivência com as pessoas, principalmente para o europeu, que não está acostumado a ter gente em casa. É uma experiência muito diferente para eles, por exemplo, comprar e cozinhar uma refeição em grupo. Também há o aprendizado de dividir o espaço, de valorizar o conforto do seu dia-a-dia etc. 

Mas que ninguém se iluda acreditando que é um mar de rosas e que todo mundo respeita os companheiros ao redor. Imagine um monte de gente junta, de culturas, nacionalidades e hábitos diferentes, chegando depois de andar um mínimo de 20 km, cansados, suados, fedorentos, com chulé e geralmente com fome. Depois imagine que só alguns conseguirão tomar banho quente, em um banheiro unissex com pouca privacidade, e que haverá uma fila na cozinha para sua vez de cozinhar, obviamente depois de lavar sua roupa e estendê-la em uma corda comunitária. Que às 22:00hs, no máximo, alguém vai apagar a luz e fechar a porta. E às 5 da matina você não conseguirá mais dormir. Honestamente, dá para acreditar que só sairão amigos? 

Saem amigos sim, mas nem todos. E é bom se prevenir para isso também. Os seres humanos continuam humanos. 

Não quero parecer pessimista, até porque nem tudo é assim tão mal. O que se diz dos relacionamentos durante o caminho é verdade. Você conhece muita gente boa e as amizades florecem rápido. É que todos os seus dias são muito intensos e longos. As pessoas estão expostas e uniformizadas. Vestidos de peregrinos não há pobres nem ricos, bonitos nem feios, somos muito parecidos, fazemos as mesmas coisas, comemos as mesmas comidas, bebemos nas mesmas fontes. Há uma enorme afinidade e solidariedade entre as pessoas. E é sincera. 

Mas voltando a Pontferrada, decidi que caminharia de dia usando a mochila, assim iria me ambientando. A fantasia de peregrina não era uma opção, era a única roupa que tinha mesmo e a verdade é que já me sentia confortável com ela. 

Fomos caminhar nas margens do Rio, há uma trilha que desce pela lateral do castelo dos Templários. Passamos por uma pequena ponte, que imagino ser a tal que originou o nome da cidade. Os instintos ligados no volume máximo, ou o que acreditava ser. Queria viver a aventura na veia. 

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Quase me distraí, o bate papo e as mil fotografias me lembravam uma viagem turística. Em determinado momento, subimos por uma escada, em um trecho fechado, teoricamente proibido. Escutei uma cobra e a vi imediatamente se aninhar e se esconder pela escada, pensei, cobra criada. Melhor prestar mais atenção. 

Dalí resolvi ouvir o recado e voltamos pelo mesmo trajeto, onde quase pisei em um rato morto. Pulei de susto, mais do que com a cobra viva. Entendi que o jogo ia começar. Não era uma brincadeirinha de criança, não tiraríamos tudo de letra e que não contasse que nada de mal pudesse nos acontecer. 

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