XXII – O meu papel

Na catederal de Santiago, no dia seguinte à chegada, pouco antes da missa, tudo para mim fez sentido.

O que esperava que fosse acontecer? Que eu chegasse alguma iluminada? Que me transformaria na mãe do ano? Que teria uma brilhante idéia sobre um trabalho artístico? Ou quem sabe mudava logo de carreira, pronto, virava a médica cientista que descobriria a cura do câncer!  

Eu só poderia chegar quem eu era. Quando na minha vida fiz alguma coisa tão certinho, pelo caminho indicado? Quando li o manual e segui as instruções? Nunca. Sempre fui um pouco torta e intuitiva. Tive o que pedi, uma enorme metáfora em versão intensiva.  

Lembrei de quando era criança no colégio. Essa história insistia em vir na cabeça. Tinha acesso a alguns livros meio proibidos, nem eram nada demais, mas eram considerados de conteúdo impróprio para nossa idade. Na educação que recebi, nunca fui tolhida de ler nada. Às vezes, também rolava alguma curiosidade natural sobre sexo, bobagens, o básico do básico. Eu era sempre a encarregada de perguntar em casa para minha pobre mãe que tinha duas alternativas, morrer de vergonha ou de rir. Mas enfim, o fato é que no recreio do dia seguinte, minha função era dar um relato a um grupinho de meninas curiosas em ouvir o que não era para elas saberem. E fazia minha parte, contava em detalhes o que estava escrito, o que havia interpretado, o que minha mãe disse. Não me custava nada, ia ler de qualquer forma, ia perguntar mesmo, então compartilhava o que havia visto. 

Deveria ter advinhado que era esse o meu papel. Caberia a mim correr riscos e voltar para relatar. Não seria heróico nem obstinado, seria só porque é o que sei fazer. É a minha natureza. Posso contar o que há atrás das cortinas, nos desvios, e assim despertar curiosidade ou certificar que não é por ali. Cada um que siga por seu próprio caminho, ou pelas rotas alternativas se preferir, mas dessa vez conhecendo um pouco mais por onde pisa. 

Preciso passear no inferno de vez em quando e, como diria Gibran, provar das águas mais impuras. Não para me instalar, mas para saber que gosto tem, definir o trajeto para a próxima parada, o próximo ciclo. Voltar não é fácil porque nem sempre se pode deixar rastro, às vezes nem é a mesma rota de volta, e me perco. Mas se estou aqui é porque de alguma forma achei o caminho de casa, seja lá onde ela esteja, e voltei. 

E 200 km é muita coisa.  

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10 comentários em “XXII – O meu papel”

  1. Olá Bianca,

    Vi uma pessoa no grupo de discussão sobre o caminho de Santiago indicando seu blog, resolvi dar uma olhadinha e li todo esse tópico de uma só vez! Meus parabéns, vc escreve muito bem e ler a sua estória melhorou muito meu humor hoje! Vou fazer o caminho (trecho saindo do Porto) agora em abril, e parece que lendo o seu blog eu realmente já comecei a peregrinação…..

    Abçs, Luiza.

  2. Oi, Luiza! Obrigada! Engraçado saber que alguém de um grupo de discussão indicou meu blog, não sei quem foi, mas é curioso como a gente pode cruzar o caminho das pessoas sem ter consciência 🙂 Te indico também o livro de um amigo que é ótimo, “Os Caminhos e Descaminhos de Santiago de Compostela”, de Luiz Paulo Viveiros de Castro. Na verdade, ele é um dos amigos brasileiros que contei aqui no blog. Depois dessa vez, já voltei outras três vezes em trechos diferentes, e cada vez é única.

    Enfim, sorte para você e espero que possa aproveitar uma experiência extraordinária.

    Bom Caminho!

  3. Foi alguém do grupo da aacsbrasil, agora nem me lembro o nome pq todo dia chegam vários emails e eu leio alguns meio aleatoriamente….achei interessante pq nunca tinha lido um blog (pasme, eu não sou muito chegada em computador…), e aí resolvi conhecer o seu e achei ótimo!

    Vc chegou a fazer o caminho Português? Eu sempre pensei em fazer o Francês mas acabei ganhando uma promoção num shopping aqui do Rio para fazer o trecho galego, e aí vou começar por lá… tb resolvi fazer um mais curto pq depois vou passear por aí… ah, vc poderia me dar umas dicas de passeios em Madrid? Eu devo ir do Porto para a Grécia e voltar por Paris e Madrid, depois de fazer o caminho…..

    Abçs, Luiza.

  4. Oi, Luiza! Nossa, que legal, você “ganhou” um Caminho… heheheh… Bom, não fiz o Português ainda. Mas te passarei algumas dicas de Madrid. Estou viajando agora, volto no fim de semana para casa e de lá te envio alguma coisa. Nesse momento estou em Paris e se você quiser alguma dica, dá uma olhada na categoria “Crônicas” desse mesmo blog. Devo postar entre hoje e amanhã algumas dicas de restaurantes parisienses. Tem um outro blog show sobre Paris, http://www.conexaoparis.com.br/, foi uma leitora que me indicou e fiquei frequesa. Besitos

  5. Eu sempre tive vontade de ir mas ia adiando, como tantas outras coisas que a gente vai adiando pela vida. Nem acreditei quando me ligaram, achei que era trote pq nunca ganhei esses concursos… chamado mais direto do que esse para ir ao Caminho é dificil, né? Eu li sobre a “torta de chocolate” ontem e vi que vc está em Paris, ai que saudades que eu sinto de Paris…fiquei aí uns 5 dias há uns 3 anos, imagina que maravilha deve ser morar aí. Já copiei suas dicas de restaurantes (da outra vez eu comi num tipo bandejão ao lado do Pompidou, era bom e barato, eu queria ter ido mais em restaurantes mas ficava com medo que fosse caro e a comida ruim…), fico esperando entao quando vc tiver mais tempo as dicas de Madrid, não sei se vc consegue ver meu email, é luizapaleoarte@xxx
    Ah, obrigado pela dica desse blog de Paris, é ótimo! Bjs!

  6. Menina,

    Veja como esse mundo é pequeno. Entrei numa lista de discussão sobre o caminho, para pegar informações sobre o caminho português. Numa troca de mensagens com uma artista plástica aqui do Rio, indiquei seu blog, indicando para ela ler o desvios do caminho. A Luiza, essa que te escreveu, também faz parte da lista e já mandei várias informações sobre o caminho português para ela. Agora, você indica o meu livro para a pessoa que eu indiquei o seu blog.
    Como se diz por aí, arriero somos y en el camino nos encontramos …
    Beijos,

    Luiz

  7. …hehehehe… não acredito! Essa foi boa! 😀 Escuta, estou animada para fazer ano que vem! Já comecei o treinamento subindo e descendo escada todos os dias! Agora só falta o mais difícil que é me preparar psicologicamente para dormir em albergue, se for inevitável. Porque não teremos a mesma estrutura que o Caminho Francês nem a pau! Besitos

  8. Oi Bianca, resolvi visitar seu blog por indicação da Adri que postou recentimente no orkut em um topico sobre o caminho de santiago,na verdade eu nao tenho muito a habito da leitura mas começei ler e li de uma só vez oque resulta inedito para mim. MUITAS FELICIDADES por ter o DON de escrever e se expressar tao bem .

    Gostei muito de como vc viveu sua experiencia!

    abraços,

    MILENA

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