XXI – A volta para casa

Na saída da missa, quem encontrei? Os amigos brasileiros, é claro. Fomos nos sentar em uma praça, atrás da catedral, de onde se ouvia um músico com um repertório de jazz e bossa nova. Achamos que era brasileiro também, fui lá falar com ele. Era uruguaio, mas morou muitos anos no Brasil e, inclusive, falava um bom português. 

Dois outros brasileiros se juntaram a nós. Eles conheciam meus amigos do início do caminho. Ficamos ali, fazendo hora para almoçar. Luiz me ligando de vez em quando, para dizer onde estava na estrada. 

Por volta das duas e alguma coisa, sentei com os amigos em um restaurante cheio e barulhento. Eles também não gostaram tanto assim do lugar, mas resolveram arriscar. Não almocei, só sentei um pouco com eles, para esperar Luiz ligar, avisando que já estava na cidade. Assim que ele me ligou, dizendo que estava na entrada de Santiago, me despedi e fui para o hotel esperá-lo. Chegamos na porta do hotel praticamente juntos. 

Luiz já havia comido algo pela estrada, mas sentamos no restaurante do próprio hotel para que eu almoçasse. Estava feliz por ele estar ali, mas ainda não conseguia falar muito. Soltava algumas histórias que me pareciam mais fáceis ou engraçadas, de qualquer forma, ele veio acompanhando algumas delas pelo telefone. As outras, me pareciam difíceis, me engasgavam na garganta e me dava vontade de chorar. Mas já não queria mais chorar.  

Ele sabia que o caminho havia mexido mais comigo do que havia planejado. 

Não demoramos muito no almoço, ele precisava subir e fazer uma reunião por telefone. Assim que acabou, fomos dar uma volta. Ele me perguntou se queria ligar para os amigos brasileiros e eu disse, não precisa, a gente sempre se encontra na rua. E assim foi. Acabamos os quatro em uma vinoteca, papeando um pouco.  

O brasileiro que, às vezes, achava meio parecido comigo, estava sentindo umas tonteiras ou algo do gênero. Engraçado, porque também sentia a mesma coisa, não sei se pelos mesmos motivos. De vez em quando, desde que cheguei a Santiago, me batia umas zonzeiras, como quando a gente viaja de trem ou barco. Não era permanente, mas passava de vez em quando. O corpo parece que custa a voltar. 

Foi a última vez que vi os dois amigos brasileiros juntos. O amigo mais velho, ainda encontramos à noite, tomamos um vinho e nos dirigimos a um concerto de tunas. Pretendíamos nos encontrar depois, mas Luiz e eu acabamos dormindo cedo. Estava exausta e no dia seguinte, pela manhã, pegaríamos a estrada em direção a Madri. 

Não acordamos tarde e, para surpresa do Luiz, não foi difícil que me levantasse. Na verdade, fui tomar café antes dele, que me encontrou em seguida. Continuava sem muita vontade de falar. 

No carro, uma sensação completa de claustrofobia. Imaginei minha amiga que encarou um avião, ou pior, os dois brasileiros que encararíam horas dentro de um. Fiquei quase sem ar e a velocidade me mareava. A rádio ruim me torturava com o barulho, na verdade, todo ruído da cidade e dos carros eram incômodos. Não era possível que estivesse estranhando tanto assim a vida urbana, estava fora de casa há cerca de duas semanas, não era nada! 

Algum tempo depois de sairmos, lembrei do CD de jazz que havia comprado do uruguaio abrasileirado da praça. Pedi para Luiz parar o carro e fui pegar no porta-malas. Ao sair, o vento, o cheiro de terra e admito que também o de vaca, foram como fôlego novo. Passou o mareio na hora. Era estranho, mas realmente estava resistindo voltar à vida normal. Dirigir então, foi bizarro! 

Mas uma hora chegamos em casa e comecei a me esforçar para chegar. Meu gato não fez doce, achei que me evitaria, mas estava carente que só. Luiz havia limpado a casa e eu não havia trazido muita roupa suja. Sentei no computador e tomei coragem de me comunicar com o resto do planeta. Havia um monte de mensagens bonitinhas de amigos e consegui falar com minha família. 

Nesse mesmo dia, saí com Luiz e amigos, precisava voltar, precisava achar uma ponta de carretel.  

Os pés, inchados como bolas de futebol! Passaram mais de uma semana assim, só melhoravam quando caminhava. Segundo Luiz, meu corpo deve ter se acostumado a reter líquido, como defesa. Acontece que não estava mais caminhando 20 km e esse líquido todo ficava retido. Mudei um pouco a dieta, tudo que fosse diurético. E o mais engraçado, continuei a sair com as botas de trekking e, em seguida, as papetes. Difícil dizer, em parte o motivo era que eram os únicos sapatos que entravam no meu pé. Mas às vezes, me pergunto se também não eram um pouco de proteção. 

Que mais poderia fazer? A minha maneira de resolver e entender melhor as experiências passadas é escrevendo. Então, que assim fosse. Ainda me faltava algo importante, relatar o que finalmente entendi. 

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