XIX – E agora, José?

Havíamos meio combinado de seguir viagem a Finisterre, mas perdi completamente a vontade. No caminho tentamos várias vezes combinar como faríamos, mas nunca conseguia fechar nenhum plano. No fundo, como iria combinar alguma coisa se não tinha a menor idéia do estado que chegaria a Santiago? Previa que pudesse ser complicado, mas não imaginava que seria tanto. 

Eu e minha amiga fomos nos hospedar no Parador dos Reis Católicos, o lugar nasceu como hospital real, em 1.499, para abrigar os peregrinos. É considerado o hotel mais antigo do mundo. Hoje em dia é bastante sofisticado, mas felizmente guarda sua aparência tradicional, enormes escadarias de pedra e mobiliário antigo que nos faz sentir em outra época. 

Nem isso me animou. O luxo da compensação pela chegada não significava nada. 

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Ainda na recepção do hotel, pedi quartos separados e disse a minha amiga que precisava ir para casa. Ela me respondeu com outra pergunta, você quer dizer, para o quarto? Não, quero dizer para minha casa em Madri. 

Ficamos, a princípio, uma porta ao lado da outra. Ela estava morrendo de fome e queria almoçar, ficamos de encontrar com os amigos brasileiros. Disse a ela que não tinha a menor condição, nem comer aguentava, precisava tomar banho e ficar quieta. Sabia que ela teria companhia. Estava a um minuto de explodir outra vez, alta pressão. 

Luiz me ligava insistente, queria saber como eu estava. Na verdade, ele queria que dissesse que estava tudo bem, que estava feliz da vida, tudo as mil maravilhas. Será que ele não entendia que aquela cobrança era absurda? Não sei! Não sei o que está acontecendo, quando souber eu digo! Isso não está me ajudando em nada! Caí na choradeira da exaustão, o que o deixou mais preocupado. Preciso tomar um banho, me deixa um tempo, daqui a pouco melhoro. 

A água do banho não esquentava, liguei para recepção, veio a camareira e a torneira saiu na mão dela, veio o encanador, a água esquentou mas estava amarela. Caraca, estou no dia da marmota, isso não vai acabar nunca. Chega! Quero outro quarto, agora! Alguém veio me buscar para fazer a troca, é que o hotel é grande como um quarteirão inteiro, você pode se perder lá dentro. Estava com a mochila pronta para ir, nem cheguei a abrí-la. Aceitei que ele a carregasse e fui descalça, com as botas nas mãos. Ele me perguntou se queria que esperasse para me calçar e respondi que ele não tinha entendido, as botas não entravam mais! Assim fomos cortando caminhos por corredores semi-secretos e labirínticos do belíssimo hotel, eu suada, provavelmente fedendo e descalça; ele simpático e paciente, como quem viu aquele filme muitas vezes. 

O quarto era melhor e finalmente podia me afogar na banheira. Um bom banho quente, se não curar, ajuda muito. 

Com as idéias um pouco mais organizadas, liguei para o Luiz. Foi quando descobri que ele tinha largado tudo e dirigia em direção a Santiago. Mas o que você está fazendo? Vou te buscar. Mas você não tinha reunião amanhã? Não vou mais. Mas você vai pegar a estrada à noite, sozinho? Vou. E o gato? Uma amiga toma conta. 

Dessa vez, quem ficou preocupada fui eu. Para tudo. Que você está fazendo? Calma! Você tomou uma decisão baseado em um único momento em que eu não estava bem, mas eu vou melhorar. O convenci a brecar aquela história maluca e voltar, por que ele viria feito um doido correndo para Santiago? Eu ia melhorar. Na verdade, estava falando para mim mesma. 

De certa forma, foi bom para dar uma acordada, precisava começar a reagir. Nem sabia porque tinha ficado tão abalada, não tive só momentos ruins, pelo contrário. Por que de repente tudo parecia tão horrível? Não era horrível, só esfumaçado, confuso. 

Preciso sair da toca. Coloquei uma roupa, de peregrina é lógico, mas limpa, e liguei para minha amiga para ver onde eles estavam. Ainda não haviam conseguido almoçar e achei bom, encontro vocês para comer também. 

Na mesa, estava o casal de italianos. Nossa comunicação verbal era precária, mas ao longo da estrada, eles também passaram a ser rostos que confortavam. A gente acabava sempre se juntando em algum momento. Almocei bem, um pouco mais calma. 

Um dos amigos brasileiros queria ir até o correio, havia enviado um pacote com roupas para lá. Tem muita gente que faz isso, ou para ter alguma coisa diferente para usar quando chegar, ou porque teve que se livrar do peso no caminho. 

Por isso, me ocorreu que poderia ser uma boa idéia dar uma volta como gente normal e comprar uma roupa. E lá fui eu, passear pelo centro para fazer compras, que estranho parecia. Podia ser qualquer coisa que envolvesse jeans. Na prática, a calça de caminhada era até mais confortável, mas buscava símbolos, alguma coisa em que me agarrar para sair daquele buraco que cavei. Comprei uma calça curta, uma camiseta e um biquini, caso resolvesse finalmente ir a Finisterre. 

Voltei para o quarto, falei com Luiz outra vez, não estava nenhuma maravilha, mas bem melhor. Nesse momento, havia resolvido que não ia a Finisterre coisa nenhuma. Não mais porque estava abalada, nenhum drama, só porque queria voltar mesmo para casa. Compraria a passagem de trem no dia seguinte. Novamente ele se ofereceu para ir me buscar e dessa vez, sabe de uma coisa, quero sim, vem me buscar. Mas vem sem pressa e de dia. 

Saber que Luiz chegaria no dia seguinte me tranquilizou. Não tinha que decidir mais nada, resolver mais nada, só ir para casa. Acabei dormindo e não sabia se sairia para jantar. 

Quando acordei, liguei para minha amiga ou ela me ligou, e não conseguia entender direito se ela tinha combinado ou não com os brasileiros de encontrar, se ela queria sair para jantar, outra vez parecia que falávamos outra língua. Ela também estava cansada. Enfim, se animar, passo pelo bar mais tarde e encontro vocês, mas achei que não ia. 

Estava quase desistindo quando tocou o telefone, era o brasileiro, cadê vocês? Pois então vou, tinha até roupa nova. 

Cheguei em uma mesa enorme, devia ter umas vinte pessoas, minha amiga estava lá. Sentei ao lado de um brasileiro com quem não tive muito contato, apesar de nos cruzarmos algumas vezes. Ele perguntou, você fez o Caminho desde onde? Sem perceber, respondi em tom quase me desculpando, só fiz os últimos 200 km. Ele respondeu sério, 200 Km é muita coisa! O pessoal chega aqui e fica achando que só vale se fizer os 900… quando você andou 200 km antes? Quantas pessoas você conhece que fizeram isso?  

Ele tinha razão, e sua completa falta de condescendência, me fez respeitar sua opinião. Foi mais, me fez sentir bem. Precisei que uma pessoa praticamente estranha me dissesse que o que fiz era importante para acreditar nisso. Talvez já não fosse tão autosuficiente ou a autoestima estivesse arranhada. Ou era o cansaço? Talvez precisasse que isso estivesse traduzido em palavras. 

Minha amiga viajaria cedo, ela também decidiu ir para casa. Na dúvida se nos veríamos no dia seguinte, nos despedimos nós seis: minha amiga, eu, os dois brasileiros e o casal de italianos. Era possível que ainda nos víssemos de novo, mas assim já ficava despedido e no futuro, só precisaria dar um tchau, como se fôssemos nos ver em breve. Era difícil me separar deles, há um tipo de vínculo estranho, como se o fato de estar próxima às pessoas que tiveram uma experiência importante com você fizesse que a experiência parecesse mais real. Em outras palavras, enquanto encontrasse com eles, ou alguns deles, meu caminho ainda não havia acabado. 

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