XXIV – O dilema, não muito difícil, de não ter carro

Quando cheguei aqui, tomei uma decisão que nunca me passou pela cabeça antes. Não quero mais dirigir! Cansei. 

Há muitos anos o carro era quase uma parte do meu corpo, um prolongamento das minhas pernas e braços. Dirigir já não me dava tanta satisfação como no início, mas minha vida simplesmente foi se tornando inviável sem quatro rodas. 

Tirei carteira aos dezoito anos e uma semana. Nem fiz auto escola porque as aulas demorariam mais de um mês. Um mês quando a gente tem dezoito anos é uma eternidade para se esperar. Tive um tutor e, no próprio dia do aniversário dei entrada no processo no Detran para fazer as provas. Uma semana depois, a carteira estava na minha mão. Nessa época, morava em Brasília e o transporte público era caro e ruim.

Ainda por cima, os ônibus paravam à meia-noite. Um carro era minha independência! Ainda aos dezoito anos, voltamos a morar no Rio, onde realmente aprendi a dirigir. Eu gostava! Foi também quando comecei a viajar de carro, e era um prazer indescritível pegar a estrada. Era a minha liberdade. Cheguei até a entender um pouco de mecânica, muito importante quando seu carro é usado! 

Em São Paulo, os carros não eram tão usados e até bem confortáveis. Tinham que ser, quando você precisa passar mais de duas horas do seu dia no trânsito… Além de se adicionar a essa equação o fator “status”.  A marca do seu carro era algo fundamental até a violência crescer tanto, que as pessoas passaram a buscar os modelos mais simples para não chamar atenção. Aos poucos, fui perdendo o gosto por dirigir, mas não via outra alternativa. 

Em Atlanta então, nem se fala! É uma cidade construída para se andar de carro, muitas vezes as ruas nem tem calçada. E ainda por cima, para ter a carteira de motorista americana, tive que fazer prova de direção, teórica e prática, outra vez. O lado bom é que o trânsito não era tão ruim como o de São Paulo e o melhor ainda, não tinha motoboy! 

Enfim, quando cheguei aqui, já de saco muito cheio de dirigir, percebi que o transporte público era ótimo e as ruas razoavelmente seguras, não tive a menor dúvida: me aposentei do volante! O trânsito não é muito melhor que São Paulo e estacionar é bem mais difícil. É irritante! 

O melhor de tudo foi voltar a caminhar na rua. Engraçado que foi um prazer muito parecido ao de quando tirei minha carteira. De uma maneira antagônica, também significou independência e liberdade. Parece exagero, mas tive que reaprender a andar. Utilizar músculos que não me lembrava, proteger meus joelhos, selecionar os sapatos de forma diferente, calcular o tempo para cobrir determinada distância. Caminhando pela rua é quando vejo e penso mais. 

Por que demorei tanto a fazer algo tão fácil?

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