XLII – Meu urso

Quem assistiu o filme “Lendas da Paixão”? Pelo menos, acho que assim foi o título em português. Aquele onde o Brad Pitt aparecia com a cabeleira longa e loira. Não é o máximo quando o irmão certinho, apaixonado pela mesma mulher, lhe diz com raiva: você nunca a fará feliz! E ele seco e decidido responde, tentarei. Vá lá, não é para um Oscar, mas bem que animou a mulherada! 

Bom, mas falei desse filme por uma coisa que lembro. A história que ele desistiu de matar um urso e, desde então, seus espíritos se misturaram. Quando o urso acordou dentro dele,  precisou partir e buscar seu destino. Quase no fim do filme, o narrador diz algo como, finalmente seu urso acalmou. 

Pois também tenho meu urso. Nunca me atraquei com ele, felizmente. Acho que no meu caso veio no sangue mesmo. Pelo lado materno, minha bisavó era índia. Como minha avó costumava contar, “índia pega no laço”. Os outros foram imigrantes italianos. Uma geração mais tarde, meus avós não mudaram de país, mas de casa e de cidade algumas vezes. Dos dois lados, mais do lado da minha mãe, normalmente, por causa da minha vó. Meus pais também mudavam; de cidade por causa do meu pai e de casas por causa da minha mãe. Uma parte considerável dos meus trinta endereços veio daí. Com essa origem, acho que comecei minha vida predestinada a mudar. 

No início, era natural, era a vida que eu conhecia. Quando comecei a ter meus próprios amigos e me apaixonar, foi mais complicado. Entretanto, depois da primeira mudança mais difícil, aprendi que resistir era pior. A resistência não mudava meu destino, me fazia perder tempo e ficar triste. Um dia tomei uma decisão: queria ser feliz. 

Por experiência própria, aprendi que se pode matar uma saudade quando se sabe que a pessoa está bem, mesmo que não esteja ao seu lado. E que muitas vezes, os amigos que sentia tanta falta se viam entre si na mesma frequência que os encontrava. Que desperdício! Entendi também que boa parte dos meus planos de mudar o mundo nunca se realizaria e era melhor que cuidasse do meu próprio umbigo. Quem sabe aprendendo mais me torno útil em alguma coisa? Nunca se sabe, até o momento em que você precisa. 

Mas o mais importante mesmo é que aprendi na pele que no dia seguinte não te falta um pedaço e o mundo não parou. Tirando a morte, praticamente todo o resto é reversível. E normalmente, não importa que seja, pois a gente acaba nem querendo voltar atrás. 

Daí você começa a gostar e se vicia na mudança. Ainda é desconfortável e continua dando medo, mas você sabe que pode e isso torna impossível negá-la. Começo a sentir no ar, parece que fica mais pesado, os lugares ficam pequenos e tenho um sentimento que não caibo mais ali. Tem sido menos angustiante, não sei se meu urso está envelhecendo. 

Entretanto, devo admitir que cansa! Dessa última vez estava muito cansada. Antes de vir, tinha uma estranha sensação de estar indo para casa. O que era um pouco absurdo, considerando que estava vindo para Espanha. Agora já não sei mais se era uma premonição ou cansaço mesmo. Acho que, naquele momento, precisava acreditar que teria uma casa em algum lugar concreto e que não me sentisse afogada como nos EUA. 

Descansei. 

E contei essa longa história para dizer que meu urso acordou. Sereno, sem fome e sem pressa, mas só para me lembrar que ainda está vivo. 

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