47 – O dia em que fui negra

Ontem, quando pegava o metrô para casa, entrei no último vagão. Foi estranho, 90% dos passageiros era de negros. Não é o fato de serem negros que achei estranho, mas achei esquisito estarem todos juntos no último vagão. Como se estivessem separados. 

Entrei com outra menina branca. Ela nem sentou, ficou em pé na porta. Eu sentei, queria entender o que estava passando e porque me sentia desconfortável. Liguei minha antena. 

Na parada seguinte, ficou mais esquisito ainda. O único branco, além de mim, que estava sentado entre eles, se levantou e saltou. Do fundo do vagão, o único negro que estava entre os poucos brancos, levantou-se e sentou no lugar em que estava ocupado pelo primeiro branco que havia saltado. Como se juntasse ao grupo. 

Eles pareciam da mesma etnia, mas não trocavam uma palavra nem se olhavam. Fiquei sem entender se eram conhecidos ou se aquilo foi uma coincidência. Infelizmente, essas coisas não se perguntam. Principalmente, porque poderiam ser imigrantes ilegais com medo de serem descobertos em grupo. Essa questão da imigração é bem complicada, mas vou deixar para outro capítulo porque esse já me é difícil o suficiente. 

Enfim, na segunda parada, onde salto, saí. Pude notar, com um certo alívio, que entrariam várias pessoas brancas ou não. O vagão tornaria a se misturar. A mistura me conforta. 

Senti algo parecido em Atlanta, onde a população negra é bem grande. Nunca havia parado para pensar no Brasil que os lugares que ia eram frequentados por uma maioria branca. Era algo que olhava e não via. Confessar isso hoje me parece estúpido, mas é verdade. No início, quando passei a conhecer lugares onde se via igualmente negros e brancos, me senti feliz. Foi estranho aos meus olhos, era uma paisagem diferente da que estava acostumada, de alguma maneira, sentia que era mais justa. Me sentia bem.  

Mas depois comecei a notar, que nos mesmos lugares onde via igualmente negros e brancos, eles não se misturavam. Simplesmente, estavam no mesmo lugar. Nos restaurantes havia mesas com brancos, mas só brancos; e mesas com negros, mas só negros. Isso não gostei. E nem estou falando de casamentos entre raças, porque também passa por gosto pessoal que é outra história, estou dizendo amigos mesmo. Pessoas que, ao menos, saem juntas. 

Nesse ponto, acho o Brasil mais democrático e vou me explicar. Existe uma barreira econômica, que vem sendo vencida, mas ainda é muito forte para as pessoas descendentes de negros, porque no fundo, estamos falando de descendentes de escravos. E infelizmente, a escravidão condenou algumas gerações à pobreza. 

Entretanto, entre os pobres brasileiros há negros e brancos, e eles se misturam entre si. É difícil até se ver uma pele muito negra ou muito branca. Os negros daqui e dos Estados Unidos são muito mais pretos. Aqui, inclusive, pela proximidade da África, podemos identificar diferentes etnias negras. 

E ainda falando do Brasil, o negro que chega a ser rico não vai morar em uma comunidade para ricos negros, como nos Estados Unidos. Ainda são poucos, mas quando conquistam seu espaço, também se misturam. 

Isso me leva a pensar que entre os brasileiros não há um racismo propriamente dito, mas um preconceito social. Essa coisa de branco que não gosta de preto e de preto que não gosta de branco, simplesmente pela cor, é rara! Quando existe é entre os mais velhos e é muito mal visto! 

Pois bem, se isso talvez, e disse talvez, seja menos mal, ainda não é o suficiente. E vou descrever uma experiência também em Atlanta que me fez pensar novamente nesse assunto. 

Uma vez, Luiz e eu fomos jantar no Red Lobster. É uma cadeia de restaurantes relativamente popular que serve uma boa lagosta. Simples, informal e bom preço. Procurei na internet onde havia um desses restaurantes e anotei o único endereço que constava. Olhamos no mapa e era longe para burro! Mas como estávamos com tempo e afim de conhecer o lugar, não custava nada. 

O que não sabíamos é que era um bairro de negros. Nos Estados Unidos há essa separação, branco mora em um lugar, latino em outro e negro em outro. Eventualmente, latinos e negros moram no mesmo lugar. Admito que existe um esforço para se quebrar essas barreiras, inclusive com propagandas na TV e campanhas, mas ainda ocorre e em alguns casos, pode ser perigoso você ultrapassar essas tais barreiras. E quando digo perigoso é literalmente! Em muitos casos a agressão é física, de todos os lados. Às vezes, é só desconfortável. Mas por que desconfortável? 

Quando entramos no restaurante, estava lotado, com fila. Todos negros. Eu branquela e Luiz moreno, talvez como latino. Ele ficou apreensivo, mais pela minha segurança que pela dele. Não posso dizer que não fiquei, mas ao mesmo tempo, decidir ir embora naquele momento seria aceitar o preconceito e isso não seria justo com ninguém. 

Decidimos fazer exatamente como faríamos em uma situação “normal”. Pedimos nossa mesa e aguardamos nossos lugares. Se ali alguém tivesse sido hostil, me retiraria, caso contrário, não faria sentido. 

Esperando nossa mesa, comecei a refletir o que me deixava tão incômoda. E foi muito claro que não era a presença das pessoas que me incomodava, e sim a sensação que eu poderia estar incomodando alguém. Ninguém me olhou feio, ninguém me disse nada ofensivo, ninguém me ameaçou, e mesmo assim, me senti totalmente deslocada porque era visivelmente diferente de todos ao redor. Nesse momento queria ser negra. Não por que era melhor ou pior, mas para me sentir parte do contexto. Naquele dia eu fui a negra em um mundo de brancos. Dei sorte, eram brancos educados. E não foi fácil! 

Talvez isso explique o que algumas pessoas brancas chamam levianamente de negros que são racistas. Essa frase sempre me soa como uma justificativa ridícula e infantil. Como apontar um dedo para o outro lado, dissimulando sua própria culpa. Que importa? Preconceito é feio de qualquer lado que se olhe, seja negro ou seja branco. 

Imaginei o que os poucos amigos negros que estudaram comigo deveriam sentir. Conto no dedo quantos foram. Os primeiros dias de aula, naturalmente difíceis a todos, para eles continha uma dificuldade a mais. Ainda que fossem aceitos e bem tratados, é difícil não ver nenhum rosto parecido com o seu. Nunca pensei nisso na época, até porque para mim essa diferença não parecia relevante. 

Na situação do restaurante, tentei entender se havia alguma coisa que alguém pudesse fazer para que eu me sentisse melhor. Porque poderia repetir esse gesto no mundo de brancos. Mas não havia nada a ser feito. Tudo foi perfeito. O atendimento foi cordial, a comida estava boa e ninguém ficou me olhando. No fim, relaxei e aproveitei a noite e a lição. Nada além da mistura me faria mais confortável.  

Hoje, nos restaurantes que frequento em Madri, novamente não há muitos negros. Sinto falta do colorido nas mesas, mesmo que em mesas separadas, pois ao menos estavam ali. Meu olhar havia se habituado. 

Fico na esperança que na próxima parada, as pessoas voltem a se misturar no vagão. 

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