65 – Sobre o Ano Novo

O dia de Ano Novo é a data que mais gosto de todas! É o fechamento de um ciclo. O lugar que prefiro passar a noite de reveillon é em Copacabana. Acho lindo o ritual das pessoas vestidas de branco se misturando nas calçadas e na areia. 

É como se conhecêssemos a todos e marcássemos um grande encontro. Parece que ligamos para estranhos e dizemos: …e como vamos nos reconhecer? Vou de branco! Fechado, eu também! E assim nos encontramos na praia, como antigos conhecidos que celebram juntos. 

Alguns anos arrisquei pensar em vestir outra cor. Mas na hora que estou quase pronta, me sinto como se estivesse traindo o grupo. Volto correndo e troco minha roupa por branca! Agora sim. 

Nem sempre posso passar no Rio e também aproveito em outros lugares. Mas, para mim, é muito importante que tenha água por perto. 

Nos dias de Natal e Ano Novo sempre houve muita festa nas casas da minha família. Quando minhas avós morreram, e as duas faleceram no mesmo ano, houve um longo luto. Respeitei esse luto e o entendi, mas nunca participei dele. Minha saudade das minhas avós é assunto meu e só foi tristeza nos primeiros meses, depois mudou. 

Felizmente, um dia minha mãe se cansou da tristeza de fim de ano e as festas voltaram a acontecer na casa dos meus pais. Agora é novamente um ponto de encontro para família e amigos. 

Nessa época, ainda penso nas minhas avós e em meus outros mortos. Lembro com o mesmo respeito dos canibais que digeríam seus adversários na esperança de incorporar seus dons. 

Quando minhas avós faleceram, deixaram heranças. Ambas tinham qualidades que admiro e não possuo. O que mais me impressionava era como eram mulheres de fé. Minha mãe herdou essa crença e hoje carrega o peso e a benção da fé da família. Herdei a proteção da alma de duas bruxas boas e o amor da terceira. E é por isso, e só por isso, que os deuses fazem vista grossa à minha displicência, ao meu senso crítico cáustico e à minha arrogância atrevida em sempre achar que posso tudo. Sabem que isso é assunto nosso, das mulheres da casa. E é também com uma mulher que acerto as contas no final. 

No último dia do ano sou puxada para o mar. Depois da meia-noite, preciso me encontrar com a água, na forma em que ela estiver. Volto ao meu elemento natural para dele sair renascida. Mergulho com meu ceticismo e descrença e levanto com os cabelos mais compridos. Nesse dia me permito a contradição e o alívio da fé. Pulo as sete ondas e me lembro que, apesar do meu ateísmo, sou filha de Iemanjá. 

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