62 – Saudade

Hoje senti saudade.  

Isso nunca foi realmente um problema para mim. Não sei se por sorte, por experiência ou pela minha natureza, aprendi a lidar com a saudade e a solidão muito cedo. Falo também da solidão porque esses dois sentimentos estão sempre, de alguma forma, ligados. Acho que não sinto nem mais nem menos que ninguém, mas entendo que faz parte da vida e que não pode te limitar. Acredito que nem sempre é mau. 

Algumas vezes, é até difícil saber se estou com saudade ou não. Acho que não penso muito nisso. Pode ser porque em alguns casos confundo com nostalgia. Nostalgia é diferente, a gente sente um tipo de saudade, mas não quer voltar a fazer as mesmas coisas. É algo resolvido. Saudade a gente quer de novo. 

Hoje, andando na rua, me senti um pouco aborrecida. Na verdade, antes de sair já estava sem muita vontade de levantar. Tem vezes que o inverno te faz isso. O frio e as árvores com cara de meio mortas podem te baixar um pouco o astral. Mas notei que não estava brava com nada nem exatamente triste. Até que me dei conta que estava era com saudade. 

Deu vontade de sentar em um bar com Luiz e meus amigos. Não sei por que, mas me vinha na cabeça o Manoel e Joaquim, de Moema. Talvez porque tenha sido o último bar que fomos com amigos antes de mudar. Ouvi muitas gargalhadas na minha língua e meu sotaque meio misturado parecia não fazer nenhuma diferença. Também pude me imaginar pegando um avião às pressas em segredo para Rio, quem sabe com a cumplicidade do meu irmão, e aparecer sem avisar na casa dos meus pais. Depois ligar para alguns amigos, fingindo decidir para onde ir, e acabar indo à Academia da Cachaça e pronto. 

Senti na boca o gosto do sanduba de pernil do Mercado Municipal; quase passei mal de tanto que comi na casa da minha família paulista; vi os fogos de Copacabana, não nos barcos chatos de agora, mas aqueles que eram na areia e imitavam coqueiros gigantes; almocei com as lulus; fui ao Santa Maria comer salada de frutos do mar com champagne e comprar bem casado; li a lista de compras da amiga-que-mandava-em-minha-casa e fui buscar no Pão de Açúcar; desci a rua Augusta de carro, feliz mas com vontade de chorar, depois da exposição da Paulista; pendurei pêndulos imaginários no MAM; reclamei do trânsito e do rodízio absurdo; participei dos encontros da minha turma de colégio e tiramos várias fotos; ouvi Pink Floyd me sentindo inteligente; subi o morro da Urca para as Noites Cariocas; fiz escova com minha cabeleireira favorita e acreditei outra vez que meu cabelo é liso; fui numa festa junina e tomei capeta só para lembrar dos velhos tempos; preparei uma moqueca para os meus sogros; inventei fantasias de papel  para meu sobrinho; reencontrei meus primos; participei do amigo-ladrão e meu presente foi o mais disputado; fiz obras nos apartamentos e pintei muitas paredes. Fiz um monte de coisas hoje! 

Caramba, deu saudade e me pegou de surpresa.

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