57 – O Flamenco

Assim como a paella, não existe uma versão oficial quanto à origem do flamenco. E quando não há uma versão oficial, simplesmente elejo a explicação que acho mais interessante. 

Não há uma certeza sobre quando se iniciou. Possivelmente, antes do século XVIII já existia alguma forma de flamenco nos lugares onde viviam os ciganos, ao sul de Andaluzia. Só em meados do século XIX foram realizadas apresentações públicas. 

Os ciganos são os grandes responsáveis pela difusão do flamenco, entretanto, sua origem e estrutura musical vem de uma fusão entre diferentes culturas que passaram por Andaluzia. Sofrem influência de cantos hindus e gregos, cantos religiosos medievais, melodias persas, cantos judaicos, sons africanos e música caribenha.  

Além disso, há uma grande flexibilidade na forma de interpretação do cantor, conhecido como “cantaor” – os ciganos, como os Andaluzes, não pronunciam o “d” de “cantador”, portanto, também o tablado onde dançam é dito “tablao”. 

O canto flamenco, ou cante jondo, é dividido em estilos chamados de palos. Acho que são bem uns trinta palos, mas não sei como diferenciar a todos. Alguns exemplos: Tonás, Seguiriyas, Petenera e Tangos.  

As canções tonás estão entre as mais antigas. Possivelmente, derivam de canções populares do século XVII e da palavra “tonada”, “tono”, “melodía”. É uma criação genuinamente cigana e permaneceu muito tempo oculta entre suas famílias. Apenas ao final do século XVIII, quando o rei Carlos III proíbe a perseguição aos ciganos, as canções começam a ser mais conhecidas. As letras falam de sua vida errante e seus problemas frente às injustiças. Como quase todos os cantos originais, não tem acompanhamento musical nem baile. É uma maneira de deixar a voz ainda mais dramática, acompanhando a história que se explica. 

As seguiriyas são, possivelmente, uma derivação das tonás. Especialmente, um tipo delas chamadas plañideras, que derivam da palavra plañir (chorar). É um canto difícil, reservado a poucas famílias ciganas. Cada “cantaor” lhe dá uma interpretação pessoal e sempre soa como um lamento. 

O estilo petenera é pouco divulgado, por uma razão muito simples. Os ciganos são muito superticiosos e dizem que dá má sorte cantar essas canções em público. Assim que basicamente são cantadas em círculos menores entre as famílias. 

Os tangos estão entre os mais populares. Não é nada parecido ao tango argentino. São canções mais fáceis de entender e mais alegres. 

Bom, há diversos outros estilos, mas acredito que já tenha passado o espírito da coisa.  

Em relação a origem do nome “flamenco”,  há uma explicação curiosa, ainda que não seja historicamente comprovada. O ano de 1492 é bem conhecido por aqui, foi quando os mulçumanos foram expulsos do território espanhol. Essa expulsão se deu do norte para o sul e muitos refugiados se esconderam com os ciganos de Andaluzia. Boa parte desses fugitivos era de lavradores. Lavrador fugido em árabe antigo se diz “felag mengu”. Tudo bem, eu também não sei falar árabe antigo, mas leia em voz alta – felag mengu – e notará a semelhança com “flamenco”. 

Finalmente, acredito que mais importante que entender o flamenco é sentí-lo. Das primeiras vezes que se escuta, um ouvido mais distraído percebe apenas gemidos e lamentos. Mas se esquecer um pouco o preconceito e se deixar levar pela batida, aos poucos, o canto começa a soar como um mantra que te envolve. Há tantas matizes na voz como possibilidades de sentimentos. O ritmo ainda me parece um pouco irregular, mas assim como o coração, nada tão profundo e vivo pode ter uma batida óbvia. Nada tão visceral pode ser fácil. Quando me entrego nesse transe do violão dedilhado, aprendo um sofrimento que não tive e que alguém generosamente digeriu para mim. 

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