97 – O Reino Encantado de Andorra

Tiramos férias e fomos passar uma semana em Andorra, um micro país, de 468 Km2, encravado entre Espanha e França. A principal atividade é o turismo e possui excelentes estações de esqui, motivo pelo qual viajamos para lá. 

Para dizer a verdade, assumindo minha ignorância, não me lembrava de haver ouvido nada sobre Andorra antes, mas o nome me soou como um mundo de contos de fadas, algo do tipo: o reino encantado de Andorra, onde a bruxa malvada mantinha a princesa encarcerada em uma torre de pedras. 

Pois fui eu, a princesa guerreira sin ganas de esquiar, Luiz, meu príncipe encantado caçador de dragões de gelo, e Jack, nosso fiel e feroz leão escudeiro. Seguimos em nossa carruagem alugada, puxada por 120 cavalos, em 6 horas de viagem desde Madri. 

É claro que logo no primeiro dia minha elegância magistral foi para o saco e, com aquela quantidade de roupa isolante em camadas, me transformei rapidamente em uma plebéia desengonçada. 

Isso sem falar das botas de esqui. Francamente, aquilo é um instrumento de torturas criado pelo pior dos demônios da neve! E a gente usa de propósito, nenhum Highlander me pôs uma espada no pescoço me obrigando! Eu devo ser masoquista… Aquela porcaria faz a gente andar de um jeito esquisito. A primeira vista, todas aquelas pessoas, caminhando rígidas e em cadência,  me parecem soldados de armaduras gordas e impermeáveis, marchando para a guerra do frio.  

Mas as coisas mudam quando nos encaixamos nos esquis. A postura melhora, nos distraímos da dor e a adrenalina esquenta o corpo. Aí fica todo mundo com a maior pinta de marrento!  Todos se achando e eu inclusive. 

Engraçado como sou uma pessoa quando vou e outra quando volto da pista. Esquiar para mim é difícil começando na preparação para sair de casa. Detesto aquele monte de roupa! Sinto-me totalmente claustrofóbica e os sapatos de neve me machucam. Vou andando no maior mau humor até a estação para a subida do bondinho. Saio carregando o equipamento com aquele jeito de mulher fresca que não sabe carregar nem uma sacola, que dirá um par de esquis, botas etc. Na boa, pareço uma auxiliar de astronauta e das incompetentes! 

Daí vou subindo naquele maldito bondinho que balança e é alto para cacete! Cassilda, tenho vertigem! Quando chego no alto da montanha estou completamente mareada. Mas é só o começo, porque logo em seguida preciso colocar as malfadadas botas, que só estão no ponto quando você as aperta tanto que para piscar os olhos precisa alternar com o movimento da respiração. Decide, ou pisca ou respira!  Ninguém merece! E quando estou no topo da montanha, totalmente equipada, minha cabeça diz “desce” e minhas pernas dizem “nem fodendo marquinho”.  

Ainda por cima, Luiz esquia muito melhor que eu, acho uma sacanagem! Ele podia pelo menos fingir que é um pouco difícil por uma questão de cavalherismo! Pior, só mesmo aquelas criancinhas de bochechas vermelhas que nem sabem caminhar direito, mas passam por você zunindo de tão rápido! É muita humilhação! Isso acorda meu lado escuro da força e tenho vontade de por meu pé na frente para elas tropeçarem. Talvez por isso que elas sejam tão velozes. 

Mas uma hora minha vertigem começa a se acalmar, vou me aclimatando. Em um ato de fé, decido encarar a bruxa malvada de Andorra. Descubro que não é tão poderosa, apesar de ser prudente lhe ter respeito. E a verdade é que quando consigo relaxar, aproveitar as curvas e tomar um pouco de velocidade, finalmente, me liberto da torre de pedras e também sou capaz de encarar os dragões de gelo.  

Na volta para o hotel, a mudança é óbvia. Não sinto mais a vertigem no bondinho e desfruto a paisagem. Ando com mais confiança e com pinta de atleta radical, quem vê até pensa! Os esquis já vão apoiados nos ombros e depois de produzir litros de endorfina nem sinto o peso da mochila. Dessa vez me atrevi a usar aqueles óculos espelhados de mosca espacial, afinal de contas, atitude é importante! 

Chegando ao quarto, tudo que quero é um banho de banheira, o maior luxo do mundo. Aliás, se um dia alguém fizer um ranking dos maiores luxos do mundo, empatarão no primeiro lugar café da manhã na cama e banho de banheira. O resto é só exibição! Com isso, volto a me sentir princesa. 

Bom, pelo menos até levantar da banheira e descobrir que todos meus músculos continuam doendo e tenho ematomas nos pés e canelas. Mas afinal de contas, uma princesa guerreira deve assumir que suas cicatrizes são troféus, certo? 

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