95 – A Tal da Higiene

Sou completamente neurótica por limpeza! Não quero dizer que só sou limpinha, estou falando de neurose mesmo. Fico no limite dos obsessivos compulsivos, apesar de estar bem melhor agora do que quando era mais jovem. Em função dessa obsessão,  preciso lavar minhas mãos mais vezes que uma pessoa normal, lavar toda a comida que entra na geladeira, desinfetar o chão com água sanitária, contar as coisas na rua até darem múltiplos de dez, apertar meus dedos ou beliscar a palma da minha mão… coisas assim, rotinas que trazem segurança. Mas não é tão ruim, porque como também tenho deficiência de atenção, podemos dizer que tenho loucuras complementares. Bom, não chego a um grau que me provoque problemas ou me dificulte a vida, na verdade, a consciência dessas tendências me ajudou a tirar proveito delas. E convenhamos, nem fui eu quem disse, mas concordo que “de perto ninguém é normal”. Porém vamos falar de uma loucura por vez e hoje vou contar da minha obsessão por limpeza e como Madri me tem feito melhorar. 

Voltando um pouco no tempo, minha mãe conta uma história que meu irmão quando era pequeno vivia adoecendo e, por conta disso, cada vez mais ela o protegia, o que não adiantava. Até que um dia o pediatra informou que faltava a ele a famosa vitamina “S”,  de sujeira! Faltava a ele anticorpos. A partir disso, ela passou a expô-lo mais. Claro que no início ele adoecia, mas foi recuperando sua resistência aos poucos. 

Hoje em dia, cada vez que preciso me expor a uma situação, digamos menos higiênica, fico concentrada dizendo a mim mesma, é vitamina S, é vitamina S… 

Minha primeira melhora significativa devo aos meus gatos e a arte. Nos dois casos, me fazia impossível lavar as mãos a todo momento, além de associar essa “sujeira” a coisas que gostava. 

Agora, mudar para a Europa, desconfio que me curou! 

Vamos começar pelo pão. Que raios de relação de amor e ódio é essa que o europeu tem com o pão? Acho que as mães batem nos seus filhos pequenos com pedaços de pão e depois os oferecem como refeição! Sei lá, algo como Pavlov. Foi a única explicação razoável que encontrei! O europeu precisa fazer o pão sofrer antes de comer, ele precisa arrastá-lo no chão, caminhar com ele embaixo do sovaco, deixar pegar poeira, manusear bastante, e só aí, o pão merece o direito de ser comido! Aqui ele ainda é vendido em sacolinhas, que deixam a metade do pão do lado de fora, mas pior mesmo é na França, onde vem com um pedacinho papel em volta que só cabem três dedos para segurá-lo.  

Logo que mudei para cá, não conseguia comer pão. Era impossível não imaginar a tragetória do pobre antes de chegar a minha boca. Hoje, quando estou em restaurantes e não resisto ao cheiro do pão quente invadindo meu nariz, penso: bom, se está quente, os micróbios morreram queimados! Vitamina S… vitamina S… 

Além disso, pensando bem, se depois eu tomar vinho, o álcool desinfeta o estômago, certo? 

E andar de metrô? Aquele negócio de pegar nas barras de apoio que todo mundo põe a mão? Putz, no começo sofria! Luiz me deu a idéia de andar com lencinhos higiênicos na bolsa. Não posso dizer que não fiquei absolutamente tentada, mas já era paranóica o suficiente e resolvi lidar com a questão de maneira madura. Ou seja, maduramente aprendi a me equilibrar sem tocar em nada! 

Mas só percebi mesmo que estava praticamente curada da última vez que fui comprar frios para lanchar. Primeiro porque o jamón que comprei estava pendurado sem nenhuma proteção de embalagem, segundo porque aquela historinha de cortar os frios com luvinhas aqui não existe! É na munheca mesmo. Era o indivíduo pegando com seus dedinhos cada uma das fatias do meu presunto e eu respirando fundo e pensando, vitamina S… vitamina S… conta os presuntos pendurados até darem múltiplos de dez… 

Bom, não disse que estava assim totalmente curada, mas quer saber, em outros tempos, teria jogado tudo fora quando chegasse em casa. E acredite se quiser, comi e achei foi bom! A propósito, comi com pão. Vai ver os anticorpos também nos ajudem a diminuir o senso crítico e essa tal da higiene! 

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