88 – O primeiro dia de neve em Madri, 2006

No penúltimo dia de janeiro, pouco depois das 8:30, fui acordada por um insistente interfone. Quase não fui atender, porque não esperava por ninguém e tinha quase certeza que era engano. Mas era  possível ser o correio, pois tenho família e amigos gentis que sempre me mandam alguma coisa. Fui com aquela mala leche ver do que ser tratava e, no fim das contas, era mesmo o correio para meu apartamento. 

Era o passaporte do Luiz com seu novo visto americano. Tive que pagar 8,15 euros para recebê-lo e é claro que não tinha trocado. Paciência, fazer o que, morri em 20 euros e a promessa que ele passaria de volta assim que tivesse troco. 

Contei essa história porque ninguém que me conhece poderia acreditar que estaria acordada a essa hora sem algum motivo. Durmo no final da madrugada e acordo no fim da manhã. Vivo em outro fuso. Mas sabe de uma coisa, nesse dia meu sono foi interrompido providencialmente! 

Como Luiz estava super ansioso para receber seu passaporte de volta, liguei para ele meio sonâmbula para avisá-lo, sonhando em voltar para minha caminha quentinha. Ele me perguntou se havia olhado pela janela. Imagina, se mal olhei o carteiro! Daí ele me disse que havia nevado. 

Fui para a janela da sala conferir. A rua já estava normal, mas em cima dos carros ainda havia neve branquinha. Talvez minhas receitas malucas estejam funcionando para melhorar meu humor, talvez fosse porque era o primeiro dia de neve, talvez fosse porque não era eu quem limparia os pára-brisas congelados, e quem sabe, por tudo isso junto, mas fiquei muito feliz! E olha que foi antes das 9 da manhã! 

Um pouco relutante, vesti meu casacão por cima do pijama e tomei coragem de abrir a janela e fotografar a rua. Registrei, ao mesmo tempo, dois momentos históricos: meu primeiro dia de neve em Madri e vagas para estacionar na frente do prédio. Nem sei qual dos dois eventos me surpreendeu mais! Fotografei para não me chamarem de mentirosa, não pela neve, mas pelas vagas! 

Lembro do primeiro dia que vi neve na vida. Tinha por volta dos cinco ou seis anos, em Nova York. Pode acreditar, é uma lembrança curta, mas muito nítida, acredito que porque, para mim, era uma coisa muito diferente. Lembro da emoção de sair e ver a rua branquinha. Acho que fiz o que dá vontade em todo mundo, afundei o pé na neve para deixar marcas de pegadas. Depois não resiti e me joguei no chão sem o menor pudor! Ainda bem que conheci neve criança, hoje me daria vergonha e frio, apesar de ainda ter vontade de me jogar. E a última coisa que me lembro é de ver uma senhora desconhecida passando e rindo para mim. Acompanhei seu olhar por um tempo e minha lembrança se acaba aí. Anos depois entendi esse olhar, era inveja boa, de quem também queria se jogar no chão e se esbaldar com a neve. 

Enfim, acho que o frio da janela e as lembranças me tiraram o sono e comecei esse dia cedo. E, a propósito, o carteiro voltou mais tarde com o troco dos 20 euros e não faltava um centavo!  

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