86 – Uma coisa muito feia

Vi uma coisa muito feia, um homem batendo em uma mulher em plena rua. Sabia que acontecia, já ouvi muitas histórias, mas nunca tinha visto assim, pessoalmente. Como é feio! 

Ano passado, não me lembro exatamente em que mês, estava vendo o noticiário e mostrava um protesto enfurecido das espanholas. O motivo era o assassinato de uma mulher por seu marido. A reportagem falava do número “alarmante” de mulheres que morreram por maus tratos de seus parceiros na Espanha, em 2005. Logo em seguida, disseram que era a quadragésima-alguma-coisa mulher morta nesse mesmo ano e que providências sérias precisavam ser tomadas. Quando ouvi o número, a primeira coisa que me veio à cabeça foi que não me pareceu tanto assim.  Acho que no Brasil morrem muito mais. Ao mesmo tempo, esse pensamento me pareceu absurdo! Se uma só mulher tiver morrido, assassinada por seu marido, isso já é alarmante! Não estamos falando de 40 mulheres que morreram durante um assalto ou acidente. Falamos de casais, de pessoas que vivem juntas, dividem sua cama e que não tem, necessariamente, antecedentes criminais. Falamos de uma total falta de respeito. 

Às vezes, acho que no Brasil, e em outros lugares também, a gente perdeu a capacidade de se indignar. “Foram-se os anéis, ficaram os dedos” deixou de ser uma metáfora para se transformar em expressão literal. É o “estupra, mas não mata” virando piada que não acho a menor graça.  Lembro-me de escutar  nas rádios o “só um tapinha não dói” e sentir saudades da voz negra da Marron, que quando se referia à pancada de amor que não doía, falava de um surdo ou um pandeiro. E se seu surdo ou seu pandeiro eram referências à vida, pelo menos eram cantados de forma poética.  

Nossa falta de indignação nos acostumou aos meninos nos semáfaros,  aos mendigos queimados e aos animais vagando sem casa. Espero nunca me acostumar a ver um homem bater em uma mulher, ou mesmo um homem bater em outro, porque isso é muito feio. 

O que vi aconteceu no campus da Complutense, quando ia assistir um filme sobre guerrilheiros anti-franquistas, Silencio Roto. Estava sozinha caminhando do metrô para o prédio de filosofia, onde encontraria minhas amigas. A calçada tinha um certo movimento, nem tanto quanto no outono, mas não estava vazia. Vinha olhando as pessoas que estavam na minha frente, quando meu olhar parou em três homens e uma mulher, juntos. Nem sei explicar o porquê, mas sabia que eles não pertenciam ao lugar, não combinavam ali e meu radar me avisou logo para ficar bem atenta. Reduzi o passo, fiquei observando e analisei se existiria uma rota de fuga, se precisasse. 

Daí, dois dos três homens aceleraram o passo e o casal ficou um pouco para trás. Pareciam discutir, mas era uma coisa muito estranha. De repente, ele deu um tremendo safanão na mulher, que se protegeu, mas não fugiu. Algumas pessoas passavam do lado e ficaram meio confusas, mas não pararam. Ele continuou a andar na sua frente e, para minha surpresa, ela o chamou novamente gritando. Ele voltou, bateu nela outra vez com um murro,  gesticulou apontando para umas árvores como se a estivesse ameaçando e saiu andando na frente. Ela o chamou novamente berrando para ele voltar. Nesse momento, eu estava mais próxima e pude notar que a mulher estava molhada, como se tivesse urinado nas calças. Não sei se de medo, de dor ou de torpe e nunca vou saber, mas também era muito feio. 

Francamente, não sabia o que deveria fazer, como poderia ajudar. O que me deixava mais confusa e acho que às outras pessoas também, é que quando o homem ia embora, ela o chamava outra vez. E ele batia outra vez! Chamar a polícia, não adiantava, além de não haver tempo, a polícia não entra no campus da Universidade (motivos políticos, é lei). 

Da última vez que o vi voltar para socá-la, nosso olhar se cruzou e ele baixou o braço. Não houve da minha parte nenhuma coragem, tive medo e talvez tenha sido até imprudente, mas minha indignação perplexa foi tanta que não me deixou parar de encará-lo. Não sei se por vergonha, se por pensar que poderia reconhecê-lo, se porque havia mais gente na calçada ou por se cansar, mas dessa vez ele não bateu e foi embora. Passou do meu lado. Ela continuou gritando para ele. Ele se reuniu novamente com seus outros dois amigos, com rosto muito aborrecido, com cara cínica de vítima. E não o vi mais, espero nunca mais vê-lo, mas sei que lembrarei do seu olhar e quero que ele se lembre do meu. 

Muitas vezes, me sinto bonita simplesmente porque Luiz me olha como se eu fosse. Acho que se esse homem um dia se lembrar do jeito que olhei para ele, vai pensar: como sou feio. 

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