80 – Ciao, bela!

Luiz precisou trabalhar por alguns dias em Roma, e dessa vez deu para eu aproveitar e ir também. Até o Jack foi junto!  

Jack tem uma babá! Quando viajamos por um fim de semana, ele fica em casa. Chamamos uma mocinha que vem duas vezes por dia e troca sua comida, a água e limpa a areia. Ela até tem a chave do nosso apartamento. Mas como dessa vez era por 5 dias, muito tempo para ele ficar só, resolvemos levá-lo conosco. 

Muitos hotéis na europa aceitam animais de pequeno porte. Boa parte das companhias aéreas também. Aliás, não me lembro se já contei, mas meu gato tem passaporte europeu com foto e tudo! Juro! Ficou pronto bem antes dos meus documentos! E lá foi meu felino conosco para Itália. 

A origem da minha família é italiana, apesar de nunca termos nos preocupado muito com isso. Quem nasce no Brasil é brasileiro e pronto! De toda maneira, ainda adolescente, aprendi a falar a língua. Quando cheguei na Espanha, fazia uma confusão enorme com os idiomas e tinha um leve sotaque ridiculamente italiano quando tentava falar espanhol. Fiz tanta força para mudar isso, que precisei bloquear o italiano para progredir no castellano. Agora, chegando em Roma, era a prova de fogo! Saberia falar? Entenderia? 

Pois meu italiano estava uma bela porcaria! Saía sempre um espanhol macarrônico! Tudo bem, depois resolvo isso. De certa maneira, foi um bom sinal, quer dizer que o espanhol entrou na veia. 

Eu adoro os italianos! Eles podem até te passar para trás, e como turista isso frequentemente acontece, mas sempre com toda gentileza e um enorme sorriso no rosto. Você não se sente uma trouxa qualquer, se sente uma trouxa especial e encantadora. Convenhamos, isso faz toda a diferença! Acho os italianos deliciosamente mal educados, no ponto exato, o suficiente para não serem chatos e monótonos, mas não tanto ao ponto de serem irritantes ou grosseiros. Enfim, muito bom ver gente que sorri à toa outra vez. 

Luiz alugou uma motorino (lambreta) e partimos a passear em duas rodas. É a forma mais fácil e rápida de se locomover pela cidade. O trânsito é razoavelmente caótico e quase não há onde estacionar. O metrô não é tão bem comunicado e ônibus nem arrisquei. Também não é complicado caminhar, o centro da cidade é relativamente simples de entender e tenho um bom senso de direção. Taxi, para distâncias curtas em locais centrais é tranquilo, mas para distâncias maiores, eles podem te enrolar e cobrar tarifas mais altas. 

Há alguns anos atrás, fomos a Roma e encontramos um casal de amigos que morava em Londres. Alugamos juntos as tais lambretas e foi muito divertido. Uma história engraçada aconteceu com esse casal, bem no meio da madrugada, um frio do cão e nós nas motorinos. Daí para o casal do nosso lado e começam a cantar a música do Steppenwolf: …born to be wild! Fui capaz de me sentir a própria selvagem na motocicleta que não andava a mais que 60 km por hora! A diferença é que naquela época debochávamos da falsa aventura. Anos mais tarde e dessa vez usando capacete, para mim era uma aventura de verdade! Estou ficando velha… 

No primeiro dia, senti um pouco de preocupação por andar na moto, mas não perdi a pose e encarei o desafio. No segundo dia, não tinha mais um pingo de medo, havia me acostumado com a motorino ainda mais potente que a primeira que alugamos, e me senti muito orgulhosa em ser capaz de ousar, nem que fosse um pouquinho. Meu orgulho não durou muito, assim que ganhei total confiança perdi a dignidade, minhas pernas e, desculpe, minha bunda doíam tanto que já estava de saco cheio! Luiz, por favor, vamos devolver o brinquedo e andar ou pegar um taxi? 

Uma coisa foi muito legal, por conhecer bem a cidade e não ter mais a pressão do turismo, pudemos aproveitar de maneira mais relaxada. É que da última vez que fomos, ainda morava no Brasil, daí você encara trocentas horas de avião, em férias super difíceis de conciliar e tem sempre um pouco da neura de precisar aproveitar cada minuto. Não acho errado, faz parte e acho que também vale à pena, mas a situação agora era outra e adorei! Não fui visitar museus, não fui à Capela Sistina e esbarrava por puro acaso nas piazzas e fontes mais famosas. Luiz queria passear de motorino e eu queria bater perna em Trastevere. Tomar um brunch o mais devagar e preguiçosamente possível! Voltar para o hotel e tomar um banho de espuma bem demorado. Sair à noite para jantar uma super pasta, tomar um vinho nacional e comer tiramisú.  

Infelizmente, devo admitir que em alguns momentos a culpa me bateu. Algumas vezes, quando estou muito feliz, me bate na consciência a dúvida se mereço. Considerando que tudo na vida tem um preço, e eu sei que tem, fico um pouco preocupada se estou colhendo um esforço ou se a conta ainda vai chegar. Sei que é um pouco neurótico, mas é a verdade. Ainda é muito difícil conviver com o contraste de sentar calmamente em uma piazza, tomando um belo vinho e ver, ao lado dos monumentos, os mendigos e os vendedores ambulantes tentando sobreviver. Entendo que a solução não depende de mim, mas sei que posso fazer meu papel e sei que posso fazer mais. Nesse sentido, talvez tenha sido bom, pois voltei com muita vontade de trabalhar. 

A volta para casa foi um pouco atribulada. Começou com Luiz esquecendo seu computador no hotel e tivemos que voltar do meio do caminho para o aeroporto e buscá-lo. Chegamos no check in em cima da hora, na verdade, até um pouco atrasados. Saímos em disparada para não perder o vôo. Na hora de passar pela fiscalização, os funcionários se apaixonaram pelo Jack e o policial cismou que tinha que me mostrar a foto do gato dele também. Imagina a gente em uma pressa louca e o policial procurando a foto do gatinho dele no telefone celular para nos mostrar todo orgulhoso! Em outra situação, teria batido o maior papo, mas ali estava agoniada. Quando chegamos no balcão de embarque, quase toda fila já havia entrado, fomos os penúltimos. Ufa! 

A partir daí foi mais tranquilo. O vôo estava vazio e nos deram uma cadeira bem atrás, assim ficamos sossegados com o gato, sabendo que ninguém ouviria seus miados de reclamação, se isso ocorresse. O comissário de bordo, também apaixonado por gatos, deixou a gente abrir a bolsa de transporte porque queria brincar um pouco com o Jack antes do avião decolar. No resto da viagem, meu felino metido teve até uma poltrona só para ele, sua bolsinha foi presa ao cinto de segurança. Ele se comportou super bem, um rapazinho, e quando chegamos, novamente a tripulação queria vê-lo enquanto os passageiros não saíam. 

Como nada na vida é perfeito, uma das nossas malas não chegou. Claro que foi a minha, com as roupitas novas que comprei. Lógico que comprei roupas e uma bota linda que estica minha perna uns 20 cm! Não sou uma pessoa naturalmente consumista, mas convenhamos, estava na Itália e ganhamos em euro! Quer comparar moda italiana com espanhola, sinto muito! Todo mundo já sabe que adoro Madri, mas as roupas aqui não tem a mesma elegância. E voltando à mala, hoje pela manhã nos ligaram dizendo que localizaram a dita cuja e a trarão no fim do dia. Agora é torcer para chegar tudo certo. 

O importante é que chegamos todos bem e Jack, que infelizmente detesta viajar, já cheirou, se esparramou e se esfregou pela casa toda. Queria ter essa sua habilidade de chegar no elevador e reconhecer o cheiro da minha casa, como se sempre houvesse sido ali e sempre houvesse sido minha. 

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