77 – Manual de sobrevivência nos bares madrileños para não parecer um turista mané

Vamos, lá! Já contei sobre vários bares madrileños, mas acho que não custa nada dar uma aulinha prática de como se comportar neles, certo? Quer dizer, estou segura que todos sabem se comportar em um bar, mas há diferenças culturais, às vezes muito sutis, nos bares pelo mundo afora. E vamos falar a verdade, ninguém gosta de parecer turista! Muito menos turista mané! Estrangeiro, tudo bem, mas guiri perdido, nunca! 

Começando pelo convite, se alguém te chamar para salir de copas, não tem nada a ver com jogos! É sair para beber mesmo. Outra coisinha, sair para beber não é sair para encher a cara, é só para tomar um vinho ou uma cerveja, socialmente. Quer dizer, você pode encher a cara, se quiser, mas vai pagar mico, porque de maneira geral, o espanhol sabe beber. Não estou dizendo que não hajam borrachos, o que aqui significa bêbados, mas não é tão comum. 

Quando chegar ao balcão do bar, não espere que o barman se abra em sorrisos, afinal de contas, ele está trabalhando enquanto você se diverte. Isso não quer dizer que ele não possa ser educado ou gentil, mas provavelmente dependerá de como você se comporte com ele ou ela.  

Fundamental: seja objetivo! Os bares e restaurantes aqui tem sempre muito pouca gente atendendo, quando não é um único garçon ou garçonete. Portanto, se você enrolar muito, eles vão te ignorar. Não é má vontade ou implicância, se você for espanhol e não for objetivo, eles também farão exatamente a mesma coisa. Afinal de contas, se você foi a um bar, que tantas decisões complicadas você pode ter que tomar? Viu? Esse é o pensamento espanhol!  

Falando nisso, é uma boa coisa para ser lembrada. Não espere que a gentileza espanhola seja como a brasileira. Não é à toa que o brasileiro tem fama de amável e simpático por todo o mundo. As diferenças culturais devem ser entendidas e respeitadas. O espanhol médio não é tão sorridente nem tão aberto. Não é nada pessoal contra você, eles são assim. Não se aborreça sem motivo, eles nem vão entender porque você se aborreceu se eles não fizeram nada! 

Bom, voltando a nossa lição, a primeira decisão que você já deve ter clara é se quer ir para a barra (balcão), ou para as mesas. Normalmente, você deve esperar que um garçon ou maitre defina sua mesa. Ou seja, se você quer ir para a barra, não precisa pedir a ninguém, simplesmente se encaixe em um espaço livre, mas se quer ir para mesa, peça a alguém responsável. Um “hola, buenas noches” é sempre bem vindo, mas não estique a conversa muito mais que isso. Lembre-se da primeira lição: objetividade! Mesa para dos, ¡por favor! 

Caso você vá para mesa, a garçonete, ou como se diz aqui camarera, pode te perguntar se é para comer ou tapear. Fique tranqüilo, ela não acha que você quer enganar ninguém. Tapear vem das tapas, os aperitivos em espanhol.  

Há uma infinidade de tapas, mas os mais tradicionais são: 

  • Tortilla – um tipo de omelete de batata (para quem acompanha o blog, até já expliquei como fazer no capítulo XXI)
  • Jamón – será que ainda preciso explicar? É o presunto cru espanhol, melhor que seja ibérico de bellota.
  • Croquetas – croquetes, normalmente de jamón ou pollo (frango). Convém lembrar que podem te perguntar, em alguns casos, se você quer unidade ou ración. Não se preocupe, ninguém acha que você é cachorro, raciones são poções.
  • Huevos rotos – a tradução literal seria ovos mexidos ou quebrados, mas na prática, além dos ovos, também acompanha batatas fritas no azeite e, às vezes, pedacinhos de jamón curado.
  • Chorizos – lingüiças um pouco picantes, temperadas com pimentões vermelhos. Elas são avermelhadas, aliás, quase todo embutido (lingüiça)  aqui é avermelhado pelos pimientos (pimentões)
  • Chistorras – linguicinhas parecidas com os chorizos, mas menores
  • Callos – bucho de boi, ou tripas. Acho gostoso, mas tem que ser iniciado
  • Patatas bravas – batatas apimentadas, mas não é terrivelmente picante. Novamente, a picância, nesse caso, vem dos pimentões.
  • Patatas ou Gambas ali-oli – batatas ou camarões ao alho e óleo. Acontece que o alho e óleo aqui se parece a uma maionese com sabor de alho. A propósito, gambas são os nossos camarões menores.
  • Gambas al ajillo – são camarõezinhos feitos em um potinho de barro com azeite quente e alho. O camarão meio que frita, meio que se cozinha ao vapor. É uma delícia!
  • Chipirones a la plancha – digamos que se pareça a atual situação política brasileira: lulinha na chapa.
  • Boquerones – são peixinhos marinados em azeite.
  • Sopa de ajo ou sopa castellana –Não tem o gosto tão forte do alho, pode tomar tranqüilo. Além disso, costuma ser servida com um ovo pochet.
  • Caldo – como o nome indica, é um caldo, um brodo. Normalmente é de cozido ou de jamón. Os restaurantes que servem cozido no almoço, servem o caldo do cozido no jantar. O caldo de jamón é feito com o osso da perna do porco, quando o jamón acaba, ou seja, eles aproveitam tudo, até os ossos!
  • Paella – alguns restaurantes ou bares, servem um pratinho de paella como aperitivo.
  • Empanadas – é um tipo de pastelão de forno. Podem ser como as empanadas sul americanas também, mas normalmente são servidas em fatias e não unidades. Uma muito apreciada é a empanada de bonito (um peixe).
  • Azeitunas – é comum serem oferecidas como cortesia e, para quem gosta de azeitonas, as espanholas são fabulosas.

 Acredito que, com a lista acima, você possa se defender muito bem. Outra coisa muito comum, são as torradas. Na verdade, costumam ser chamadas de tostas ou pinchos. As tostas costumam ser uns torradões e os pinchos são um pouco menores. O que vem por cima, depende da criatividade do bar. Há os bocadillos, que normalmente são sanduichinhos para tira-gosto. 

Uma curiosidade muito interessante, no passado, um rei (que nunca sei qual foi) achou que as pessoas estavam se embebedando demais e pôs em vigor uma lei obrigando a que toda bebida alcoólica vendida  fosse, necessariamente, acompanhada de algo que comer. Obviamente, essa lei não existe mais, entretanto, a tradição ficou. Sempre que você pede alguma bebida alcoólica, a casa te oferece um pequeno aperitivo, como batatas chips, azeitonas, pedaço de tortilla, boquerones etc. 

Um detalhe que expliquei uma vez, é comum os madrilenos jogarem seus lixinhos no chão do bar. O chão do balcão, e às vezes das mesas, fica sempre cercado de guardanapos usados, palitos, cascas de semente de girassol, entre otras cositas. Sei lá, você pode fazer isso sem ser mal visto, na verdade, até te dará um ar local, mas ainda acho meio esquisito. Deixo claro que estou falando de lugares informais, nos restaurantes mais elegantes isso não acontece. Agora vamos às bebidas! Você pode pedir uma cerveza, eles te entenderão, mas de cara já saberão que é turista. Peça uma caña ou cañita e você já começou bem! Pode ser que ele te pergunte se você a quer “clara”, nesse caso, não significa a cerveja clara e sim uma combinação esdrúxula de cerveja com refrigerante! Arg! Negue até a morte! 

O vinho, se você quiser em taça, peça una copa de vino tinto/blanco. Podem te perguntar qual e, nesse caso, como você pediu em copo, não quer dizer a marca, mas a região. Ou seja, normalmente, se for tinto é rioja ou ribera, e se for branco, aconselho um rueda. O vinho da casa costuma ser muito razoável, pode pedir sem susto, mas também sem grandes compromissos. Caso seja mais exigente, peça a carta de vinhos. Eles não costumam ser muito exploradores, nem cobram uma margem de lucro muito alta por garrafa. Não é impossível, mas dificilmente alguém pede a carta de vinhos se estiver na barra, isso é mais comum na mesa. 

O espumante espanhol é a cava, aliás, el cava, porque aqui é uma palavra masculina. Além da garrafa ou ½ garrafa, pode ser pedida em copa ou benjamin. A segunda opção é uma garrafinha pequena que serve uma taça.  

A caipirinha vem alcançando uma popularidade inesperada, pelo menos para mim. Ainda não é encontrada em todos os bares, mas os que a fazem, anunciam isso em pequenos cartazes como uma vantagem adicional!  

Bom, eles também fazem uma série de drinks que me recuso a explicar porque acho uma bosta! É uma mistureba de refrigerantes e energéticos que estou fora! Se quiser, pode tentar, mas não me comprometa! 

Uma última explicação, caso você esteja na mesa e não na barra, há um tipo de ritual de atendimento que não deve ser quebrado. Primeiro, como já antecipei, porque vão te ignorar. Segundo, a gente não combinou que não era para parecer turista mané? Então, preste atenção que explicarei com toda a beleza e graça, de uma maneira muito espanhola.  

Espere a garçonete vir até você, ela vai te dar os cardápios e perguntar o que você quer beber. A não ser que você queira um vinho específico e precise olhar a carta, seu único pretexto razoável,  peça a porra da bebida nesse momento, ok? Como você não sabe o que quer beber? É caña, vino ou água, cacete! Vai ser o que? Suco de cupuaçu com granola? 

Muito bem, nesse momento ela anotará suas bebidas e deixará o cardápio para você decidir o que quer comer. Não adianta pedir a comida junto com a bebida, você estará atrapalhando o ritual. Peça a merda da bebida e leia a porcaria do cardápio. 

Daí ela chegará com suas bebidas e aí sim você poderá pedir o que quer comer. É permitido fazer algumas perguntas, tudo bem, mas você não já leu a lista que acabei de te passar? Então, que tanto você tem que perguntar? Pede logo a comida e não enche o saco! 

A partir desse momento, como você seguiu todos os passos corretamente, a garçonete já passará a tratá-lo como um ser quase humano. Afinal de contas, você não estará atravancando o serviço dela. Só nesse momento, você pode fazer alguma brincadeirinha.  

Convém lembrar que o senso de humor espanhol também é diferente do brasileiro. Assim como o humor inglês é sutil e o americano bobão, o humor espanhol é meio negro. Eles conhecem seus próprios defeitos e pouco se importam com isso, melhor é fazer piadas irônicas. Aqui não se dá gargalhadas generosas, se dá risadas de canto de boca e olhares expressivos. 

Voltando ao nosso ritual, quando terminar de comer, ela perguntará se você aceita postre (sobremesa) ou café. Não adianta pedir o café e a conta, esquece. Toma a bosta do café e só depois pode pedir a conta. Não vai estragar logo no finalzinho, né? 

Ela vai te perguntar como você quer o café. O nosso café expresso se pede café solo, caso queira com um pouco de leite, peça cortado. Pode ser pedido café con leche, mas nesse caso, provavelmente, virá em um copinho, com um pouco mais de leite. E se você pedir espreso (em espanhol se escreve assim), eles entenderão que é o café curto no estilo italiano. 

E só aí você poderá pedir a conta. É possível que te ofereçam um chupito por cortesia. Não se preocupe, nem se empolgue muito, é só um copinho de licor digestivo. Esse chupito costuma ser oferecido na mesa, mas não na barra. 

Chegada a conta, agora sim é sua vez! Não há uma gorjeta obrigatória na Espanha, na maioria das vezes, você deixa umas moedas arredondando a conta. Muita gente não deixa nada. Isso explica e muito a boa vontade do atendimento recebido. Agora, se é um lugar onde você quer voltar, você foi tratado com educação e gentileza, por que não colaborar? 

Apesar das piadinhas, uma coisa digo, não importa a cultura, cada um elege como quer se comportar. Procuro não destoar do contexto nem fazer papel de boba, mas independente de como seja atendida, sempre sou educada. Até porque, sempre me restará a opção de ser educadamente firme e também de não voltar. Nada pior que perder a classe, mesmo que seja no balcão do boteco. Eles são mal humorados? Talvez às vezes, talvez um pouco, mas talvez seja só uma maneira de falar ou um dia ruim… Importa que saímos muito e, nos lugares que gosto, trato os garçons por seus nomes e com respeito, espero minha vez, deixo gorjeta e jogo lixo no lixo. E um segredinho entre nós, normalmente sou muito bem tratada. 

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