71 – A Festa de Ano Novo

Conforme prometido anteriormente, agora conto a super festa de Ano Novo. Foi dividida em duas etapas, a primeira aqui em casa, onde jantamos e brindamos com os amigos. A segunda, depois da meia-noite, quando fomos a um clube para celebrar dançando até cansar. 

Na primeira etapa em casa, estávamos em 14 adultos e 2 crianças. Como de costume, a boa e velha torre de babel: brasileiros, alemão, ítalo-argentinos e mexicanas. Algumas vezes era uma confusão de idiomas, mas gente boa se entende em qualquer língua. 

Porque não começar contando sobre as comidinhas? Fora os aperitivos, fiz saladas (verde, de batatas e de cogumelos), arroz branco, farofa com bacon e manteiga, um lombo de porco, uma carne de boi assada e…tcham, tcham, tcham, tcham… um tender! Aqui em Madri não existe tender de jeito nenhum, mas minha amiga brasileira que mora na Alemanha trouxe um de lá! Foi um sucesso! Ai, que vontade que estava de comer tender! A outra amiga brasileira que mora em Madri fez as lentilhas, adorei porque tinha me esquecido e, no dia mundial da superstição, sempre é bom dar uma forcinha para sorte. 

As sobremesas, não fiz nenhuma, nossos amigos trouxeram um pudim de leite brasileiríssimo, um pudim light (que, preconceituosamente, só provei no dia seguinte e estava ótimo!), uma torta de sorvete, um panetone italiano coberto de chocolate, bombons e a também brasileiríssima combinação de goiabada com queijo. 

O amigo que trouxe os pudins, de quebra nos trouxe de presente uma carne seca, paio, cachaça e café brasileiro. Olha que máximo! Desconfio que minha fama de gulosa está se espalhando rapidamente pelo mundo! 

Dei uma mancada corrigida pelos nossos amigos. Achei que havia quatro garrafas de cava na geladeira e tinham duas. Como a geladeira estava abarrotada de comida, só percebi isso uns 15 minutos antes das pessoas começarem a chegar e gelei! Como faríamos o brinde? Quer dizer, dava para dividir, mas ia ficar pouco e é chato, né? Pois até nisso a noite conspirou a nosso favor. Três dos nossos amigos trouxeram garrafas de champagne e ainda por cima da mesma marca, Moet Chandon! Parece até que tinham combinado! Se sorte já é bem vinda, imagina sorte acompanhada de classe! 

A maioria das pessoas tomou vinho. Eu, fui direto para o single malt, porque sabia que a noite seria longa e estava animadíssima! Claro que na hora do brinde, fui para o champagne, como não? 

Aliás, gente, mas que brinde estressante! Ocorreu que havia tradições e superstições diferentes dos países dos convidados e daqui, e eu queria cumprir todas! Na Alemanha, a gente precisa brindar olhando nos olhos de cada pessoa, caso contrário, são sete anos de vida sexual ruim. Na Espanha, a gente come doze uvas durante as doze badaladas finais do ano. No Brasil, gosto de entrar o ano com o pé direito, portanto levanto o esquerdo. E o brinde de champagne acho que é universal. Isso quer dizer que, quase rompendo à meia-noite, com o rádio ligado para noticiar as badaladas e todos os amigos reunidos, estava eu como uma alucinada saci-pererê pulando de um pé só, quase entalando para comer doze uvas no último minuto e tendo que brindar com todos os convidados olhando nos olhos! Caramba, é muita informação ao mesmo tempo! Sobrevivi ao brinde sem me engasgar com as uvas, sem me estabacar no chão e garantindo os próximos sete anos de boa vida conjugal! Ufa! 

Depois disso, fomos para janela ver o movimento. No prédio da frente, havia outra festa que parecia bem animada. Ficamos nos falando e brindando pela janela. Até que na rua vimos umas quatro pessoas correndo e morrendo de rir com umas malas pelo quarteirão. É uma outra superstição, acho que sul americana, para quem quer viajar durante o ano. Alguns minutos depois, elas voltaram correndo novamente e entraram no mesmo prédio da festa da frente, não sei se estavam juntos, mas nós e a festa da frente ficamos na maior bagunça da janela rindo de tudo.  

Por mim, a noite de reveillon já tinha valido por aí, se soubesse que as pessoas estariam com o astral tão alto e me divertiria tanto em casa mesmo, acho que nem teria proposto continuar a festa pela rua. Mas nossos ingressos estavam comprados, então partimos para a segunda etapa. 

Não fomos todos para o mesmo local, nesse momento nos dividimos. Alguns foram para casa, alguns foram para o Lolita Lounge, um foi trabalhar e eu, Luiz e nosso casal de hóspedes fomos para a Kapital 

A Kapital é uma boite de sete andares, com ambientes diferentes em cada andar. Nos foi recomendada por madrileños como um dos melhores pontos para ir no reveillon. O lugar realmente estava animado e super cheio. É verdade que no início, quando tivemos que enfrentar uma fila enorme para guardar os casacos e pegar as bebidas, cheguei a desanimar um pouco e achar que havíamos entrado em uma tremenda roubada. Entretanto, logo depois começamos a dançar e relaxei. 

Adoro dançar! É um momento quando me desligo de quase tudo e aproveito. Aparentemente, havia gente que se desligava muito mais que eu. Foi impossível não notar e não me divertir observando outras pessoas dançarem. O lugar tem a forma de um teatro, talvez até fosse um antigo teatro, ou seja, há um palco onde costumam haver performances durante a noite. Quando não há ninguém se apresentando, os próprios frequentadores do lugar sobem no palco e dão seus espetáculos particulares ou em grupo. Francamente, são muito melhores e mais engraçados que os profissionais! Como tem gente cara-de-pau! Lógico que também tem os alcoolizados, mas faz parte da festa. O bom é que não vi nenhuma briga. 

Por algum motivo que ainda não descobri, mas vou investigar, muita gente se veste como se fosse a um baile de formatura. Os homens usam terno, colete e gravata e as mulheres usam vestidos de festa. Os vestidos, para o meu gosto, são muito cafonas. Algumas usam até luva! Isso misturado às fantasias de fim de ano é uma salada completa! Sim, porque aqui eles se fantasiam um pouco nessas festas, usam perucas, chapéus, máscaras etc.

Além do que, a festa era completamente informal, como um carnaval, e as pessoas estavam se acabando de dançar de paletó e gravata! Era um pouco contraditório, mas não deixava de ser divertido.  

Pouco depois das 5 da manhã, me compadeci do Luiz e dos nossos amigos e perguntei se eles já queriam ir, assim evitaríamos outra fila para pegar os casacos. Demos muita sorte ao sair, pois achamos um taxi quase na porta e voltamos para casa. Chegando no apartamento, fui tomar meu primeiro banho do ano. Lavei meu cabelo que cheirava a cinzeiro e, pelo sim e pelo não, improvisei as sete ondas puladas na banheira mesmo.  

Aliás, esqueci de contar essa parte da noite que também foi muito boa. Um pouco antes dos meus convidados chegarem, fui para internet falar com minha família, novamente utilizando a webcam e vendo como estava a festa por lá. Claro que na casa dos meus pais havia uma grande festa! Eles moram bem de frente para a praia no Rio de Janeiro e no reveillon é como assistir aos fogos de camarote. Falei com meus pais, primos e quem passasse pela frente da câmera. Normalmente, no último dia do ano faço uma retrospectiva mental do que passou e priorizo, por alto, alguns objetivos. Esse ano não fiz isso. Nenhum motivo específico, acho que estava ocupada ou pensando em outras coisas. Mas fui puxada à realidade com uma pergunta feita pela minha mãe. Conversando com eles, pedi um representante brasileiro para pular as sete ondas para mim na praia. Minha prima, gentilmente, se ofereceu e perguntou o que ela deveria pedir. Minha mãe me repetiu a pergunta, o que você quer pedir? Me pegou de surpresa, não conseguia pensar em nenhum desejo único e forte. Sabe de uma coisa? Não precisa pedir nada, só agradecer. Do resto, a vida sozinha se encarrega, só precisamos aceitar o convite. 

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