100 – A número 100!

Caramba, e chegou a crônica número 100!  

Se ainda não falei, deu para perceber que adoro símbolos e rituais. Minha vida é dividida em ciclos, mais longos ou mais curtos, que preciso terminar e começar outro novo. 

Para alguns amigos já contei como iniciou essa história de escrever crônicas, mas agora com essa vida “pública”, conto para todos. Comecei escrevendo para mim mesma como um registro do que acontecia em Madri, que na realidade era pano de fundo para uma maneira de olhar as coisas. Era quase como um diário. Daí Luiz ficou curioso e pediu para ler. Deixei meio sem graça, apesar de não haver nenhum segredo. Ele gostou tanto que me incentivou a publicar um blog. Quase morri de vergonha, pois sempre foi muito difícil me expor, mas topei até porque era difícil. Na minha cabeça, como preciso de um limite, pensava, vou tentar chegar na número 100. E aqui estamos, nem acredito! 

Achava que quando chegasse esse momento teria cumprido minha missão, mas a verdade é que estou totalmente viciada e não sei mais não escrever. O grau de constrangimento que sentia no início é proporcional à delícia de possuir um canal de expressão. Poder compartilhar experiências é tudo de bom. 

Porém, preciso fechar um ciclo e iniciar outro, é a minha natureza. E por um acaso feliz, hoje inicio outro ciclo na minha vida. 

Hoje foi o primeiro dia do meu master em arte contemporânea, equivale a uma pós-graduação no Brasil. Cerca de quinze anos após a Academia, volto para faculdade. Outra área, outro país e a mesma ansiedade. É como entrar na montanha-russa, naquela sensação de segundos antes de iniciar o trajeto. Estou lá porque quero, mas sempre nesse momento me pergunto se deveria estar ali. 

Pois sim, deveria. 

Estamos onde deveríamos e nos cabe a responsabilidade de fazer isso valer a pena. 

Hoje muitas idéias contraditórias passaram pela minha cabeça. Por um lado, estava aliviada de finalmente me sentir começando algo, tendo um plano de gente normal. Por outro, me sentia presa, é difícil para mim pensar no prazo de um ano. Aprendi a sobreviver no caos e é nesse caos que me diferencio. Tive a alegria de perceber a oportunidade de concretizar projetos e ao mesmo tempo o medo de precisar confrontar minha própria incompetência. Por que ainda é tão difícil crescer?

Termino com meu mandra de cabeceira, que me resgata dos momentos de angústia, não necessariamente maus. É meu grito de guerra, meu amuleto para recomeçar. 

“Se eu me demorar demais olhando Paysage aux oiseaux jaunes, de Klee, nunca mais poderei voltar atrás. Coragem e covardia são um jogo que se joga a cada instante. Assusta a visão talvez irremediável e que talvez seja a da liberdade. O hábito de olhar através das grades da prisão, o conforto de segurar com as duas mãos as barras, enquanto olho. A prisão é a segurança, as barras o apoio para as mãos. Então reconheço que a liberdade é só para muito poucos. De novo coragem e covardia se jogaram: minha coragem, inteiramente possível, me amedronta. Pois sei que minha coragem é possível. Começo então a pensar que entre os loucos há os que não são loucos. É que a possibilidade, que é verdadeiramente realizada, não é para ser entendida. E à medida que a pessoa quiser explicar, ela estará perdendo a coragem, ela já estará pedindo; Paysage aux oiseaux jaunes não pede. Pelo menos calculo o que seria a liberdade. E é isso que torna intolerável a segurança das grades; o conforto dessa prisão me bate na cara. Tudo que eu tenho aguentado – só para não ser livre…”  (livro “Para não esquecer” de Clarice Lispector)

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