Não acordei muito tarde, como imaginei que faria. Acho que o corpo estava muito acostumado a levantar e sair. Ainda fiquei fazendo hora, mas depois fui tomar café sozinha. Aliás, um café banquete!
Luiz só chegaria na cidade por volta das três da tarde, então achei melhor dar uma volta. Já nem telefonei mais para os brasileiros, tinha certeza que a gente se esbarraria pela rua, era sempre assim.
Fiquei na dúvida se ia ou não na tal da missa. Em princípio, iria mais por causa deles, ou para ver o ritual do fumeiro. Acontece que, na prática, estava sozinha, além do mais, só tinha o fumeiro aos domingos e era uma quinta-feira, dia 07. Bom, mas também, o que ia ficar fazendo? Então vou.
Tentei me lembrar quando havia sido a última missa que assisti, e cheguei a conclusão que foi aquela onde desacreditei de vez. Caramba, mas isso foi há mais de vinte anos! É verdade que havia ido a casamentos, batizados ou coisas assim. Não sei se contava, porque não prestava mais atenção ou me incomodava. A beleza da construção me distraiu das estatísticas.
Sentei em um banco, ainda era cedo. Um bom local, bem na frente da corda do fumeiro. Relaxei e deixei o pensamento correr solto. Quando me dei conta, foi como se tivesse ligado o limpador de para-brisas, tudo de repente passou a ficar mais claro, mais fácil de entender. Estava com meus instintos totalmente prontos outra vez. Finalmente, tudo fez sentido e entendi o meu papel.
Continuava séria, não havia motivos para riso fácil. Mas estava serena.
Como não poderia deixar de ser, chegou meu amigo brasileiro, o mais jovem. Sentou do meu lado. A missa começou.
Uma freira abriu a cerimônia, para ensaiar os cantos daquele dia. Cantava em latim e pedia com naturalidade que repetíssemos. Pensava, meu latim não anda muito fluente, que tal aramaico? Mas, para minha surpresa, muita gente correspondia. E de fato ela tinha uma voz muito bonita.
Começou a parte litúrgica que, sem nenhuma implicância, foi um saco. Um sermão bobo e sem empolgação, sobre casamento. Irritou meu amigo brasileiro, que se aborrecia em prestar atenção. Via nele minhas antigas irritações e inquietudes. O inconformismo que havia perdido em parte, pelo menos no que diz respeito a esse assunto. Ele perdeu a paciência e se foi antes do fim. Ainda pensei, você deveria ficar, precisará exercitar essa habiliade de ouvir impassível algo que não concorda, é importante para um político. Mas ele tem tempo. E olha quem fala.
Fiquei surpresa como não me irritava. As palavras passavam através de mim sem machucar, indiferentes, abstratas. E as cenas que observava eram no mínimo curiosas.
Passou um rapazinho, fantasiado com um longo traje cor vinho, e na mão, um saco da mesma cor, cheio de moedas. Pedia contribuições para a igreja. Lembrei da voz do Chico Anísio dizendo: vamos passar a sacolinha!
Mas a campeã foi uma senhora na comunhão. Logo que saiu da frente do padre, começou a por a hóstia na boca em câmera lenta, dando uma paradinha. E eu me perguntando, por que? Segui seu olhar e vi uma mocinha na sua frente tirando uma foto. Ela estava posando com a hóstia para a fotografia! Afinal de contas, ela comungava na catedral de Santiago de Compostela, né? Já pensou o sucesso que essa foto fará com as amigas?
Resumo da ópera, show fraco, figurantes desorientados, mas boa trilha sonora. Havia uma coisa realmente bonita, as pessoas de fé de verdade e as que buscam. Para elas vai minha reverência sincera, porque era o que de melhor havia ali.

